sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

É só fumaça! O povo é sereno...

     Meu caro Elias, ainda bem que tens acompanhado de perto a generalidade dos candidatos à presidência de República e filtraste as respectivas mensagens.
    É obra!
    Vinda de ti, homem diligente, capaz, sério, pouco dado a ficções ou fantasias, não é nada estranho.        Impressionou-me, em especial, a lucidez com que olhas para o momento que o país atravessa e sublinhas o fraccionamento social e político, tão nefasto quando é necessário unir forças num projecto que garanta o futuro da nação - mais trabalho, mais empreendedorismo, mais organização, mais planeamento, mais dedicação ao bem comum, mais serviço, mais tudo que permita aos jovens acreditar que o amanhã começa agora e o país exige-lhes compromisso, coragem, vontade de fazer melhor, perpetuando o espírito de luta que a história de quase nove séculos documenta.
    São tuas as palavras que me evidenciam a convicção da escolha e o sentido do teu voto:
    «Vi-te, ontem, ainda indeciso na escolha do candidato ao qual entregarás o teu voto! Após a nossa conversa, decidi, em nome da amizade inquebrantável que nos une e sem querer interferir no teu próprio processo de decantação das mensagens políticas dos últimos meses, dar-te nota das razões por que vou votar no Almirante Henrique Goveia e Melo.
    Primeiro, é quem se propõe unir. Sei que, em geral, os portugueses não fazem escolhas em função do interesse geral e querem todos o que mais rapidamente satisfaça este ou aquele interesse particular, de grupo, de classe. Confere com a luta pelo poder, de que são obreiros os líderes dos partidos. Na presidência, porém, a ideia fulcral é que Portugal vá singrando com rumo, com plano de navegação e destino conhecido. Isso não se consegue remando cada um para seu lado ou indo com a maré.
    Segundo, é quem demonstra ter visão estratégica e conhecimentos vastos de geopolítica. Todos sabemos que o bem-estar futuro dos portugueses depende do modo como se enfrentar os desafios da inovação, do conhecimento, do empreendedorismo, do aproveitamento dos recursos próprios (os naturais, como o mar, as florestas; e os humanos, sempre tão capazes de enfrentar desafios difíceis..). Depois, as convulsões no mundo - guerras, disputas territoriais, áreas de influência, aprovisionamento de matérias primas... - anunciam mudanças de posicionamento dos vários poderes mundiais, uns querendo manter blocos de interesses, outros sustentanto multilateralismos variados, desafiando a União Europeia e, naturalmente, o nosso país, tão poderoso e tão sensível no Atlântico por causa da enorme zona geográfica que lhe garante os Açores e a Madeira.
    Terceiro, é quem faz nitida separação entre a posição fulcral da presidência da República na articulação com os demais centros de poder - legislativo, executivo, judicial, comunicação social. O presidente deve garantir que os portugueses sejam respeitados nas opções que sufragaram, exigindo que o poder legislativo e executivo cumpram os programas sufragados e deve exigir condições para o funcionamento do poder judicial, garantir meios para as forças armadas e de segurança...
    Poder-te-ia apontar outras razões, todas elas relevantes e que indicíam que a presidência exercida pelo Almirante será um centro de poder credível, sério, esclarecido, exigente...
    E quanto ao facto de se poder presumir, pelas ditas sondagens de que tanto falámos naquela conversa, que há outros candidatos «mais preferidos» dos portugueses, ocorre-me a frase de outro Almirante, dita em tempo de incerteza: "É só fumaça! O povo é sereno." O vaticínio que faço é que os portugueses vão elevar o Almirante HGM à presidência da República e revelarão grande maturidade se o fizerem sem necessidade de outra campanha e votação.»
    Em geral, parece que tens razão, meu amigo.
    Até domingo vou pensar no teor da nossa conversa e desses três pontos da tua missiva.                             Evidentemente que as sondagens parecem fazer parte de um filme de ficção mas a eleição no próximo domingo parece-me improvável.
    Ambos desejamos o melhor para o nosso País.
    Abraço-te
    PS: Ficam para outras ocasião os temas que aprofundamos, em particular sobre o regime jurídico da Directiva Antecipada de Vontade/Testamento Vital em relação ao qual te mostraste indiferente (ou céptico?).




segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

E se nos morre um amigo sem aviso...

    Elias, meu amigo, reitero o que, em mensagem de voz, te disse na passagem de Ano: "A amizade alimenta-se com gestos simples. Não precisamos de a manifestar, amiúde e exuberantemente. Passou mais um ano e assinalo o facto com um abraço virtual, com a promessa de um dia destes, o podermos concretizar "a sério", com pancadinha nas costas, como é nosso hábito!".
    Queria falar-te a propósito de alguns tópicos deixados em aberto na nossa troca de correspondência. Falámos deles mas não os registamos. Voltarão a ser tema de troca de opiniões neste novo ano, estou certo disso. Não lhes percas o rasto... aliás, fazem parte do nosso modo de ver o mundo que, de uma ou forma, voltarão a ser relevantes. Os assuntos da amizade, da solidariedade, da fraternidade, das pessoas que são referência para ambos e que nos interpelam não perderão nunca sentido entre nós, estando vivas ou já a descansar da jornada que chegou ao fim...
    Quando te saudei, naquela mensagem, ignorava eu que o querido amigo comum, o JJM. Grácio, "já descansava no Senhor", o estado depois da morte, nas suas próprias palavras. Lembras-te, desde a nossa juventude, da intensidade com que vivia, o ardor que colocava nas causas que defendia, o empreendedorismo permanente como meio de alcançar objectivos financeiros que dessem estabilidade à família... 
    A morte não nos surpreende, mas se ela nos leva os amigos de longa data, sem aviso prévio, sem um sinal de que isso está iminente, ficamos sem chão. Ultimamente, falamos pouco, eu o o amigo Grácio, nosso irmão.Revi os meus apontamentos e recordo que lhe mandei, escrita, uma pequena mensagem na passagem de ano de 2024. Não tive resposta - o que não estranhei, porque, para ele, nas novas formas de comunicação se resumiam ao telemóvel para fazer e atender chamadas - e, uns tempo depois, liguei-lhe. Não atendeu. Devolveu-me a chamada, algum tempo depois, e eu próprio não atendi, já não sei bem por que razão... Isto para dizer que fiquei chocado com a notícia da sua morte, e soube-o já o féretro tinha sido realizado... Nem sequer tive oportunidade de participar das cerimónias do seu sepultamento. Para mim é certo que também não soubeste da sua morte pois ter-me-ias dito. Dou-te eu a notícia: No dia 19 de Dezembro de 2025 (creio ter sido nesse dia, ou talvez no dia 18...), acordou, de madrugada, com dores. Foi levado ao Hospital, Visto nas urgências, recebeu alta pouco tempo após ter dado entrada. Regressou a casa, acompanhado, e passadas algumas horas voltou às urgências do mesmo Hospital, acabando por falecer, minutos depois da meia-noite desse dia. Os médicos, na segunda ida às urgências, terão realizados exames mais rigorosos e concluído que havia um derrame no abdómen (na artéria aorta?) que já não tinha solução, clinicamente falando. A família - esposa e filhos - foram chamados e estiveram junto dele até ao desenlace, que foi tranquilo, um adormecer sereno...
    Tudo natural, concordas. Talvez - fica a dúvida - se o tivessem acompanhado com mais rigor na primeira ida às urgências o desenlace não fosse aquele. Uma intervenção cirúrgica salvar-lhe-ia a vida? Sabe-se lá, agora... Não vou especular sobre isso, tanto mais que a informação que me deram é escassa e pouco técnica.Para a mulher e filhos seria penoso discutir a suficiência ou não do cuidado médico empenhado na primeira observação em Urgência. Talvez os médicos tenham sido «instrumentos» para o libertar deste «vale de lágrimas" em que se sentia, aos 80 anos, como "peixe fora de água"... Há pessoas assim, que, sem o saber, estão em busca de algo melhor, etéreo, a concretização do ideal de «viver para sempre» sem dor, lágrimas, desilusões... Risca da lista dos nossos amigos comuns o amado Grácio. Não esqueceremos o percurso que fizemos na nossa juventude e a saudade que temos desse tempo.
    Lembraste, Elias, quando o Gracio nos surgiu, agente da PSP, em Luanda? Passado pouco tempo, renunciou à carreira e deu início à actividade comercial, na qual, com muito trabalho, foi bem sucedido. Não fora a guerra civil, a necessidade de segurança, teria sido, estou certo, uma referência de sucesso como empresário... Lembramo-nos do ar fresco da brisa do mar que apanhamos na Ilha, com uma Cuca à frente... O seu prazer convivial cativava-nos. Lembramo-nos das vistas do Douro, na Régua a que descíamos, vindos de Sanfins do Douro, a sua terra natal, onde se instalou no retorno de África. E das últimas conversas em Coimbra, com o Mondego a correr por perto... Eu lembro-me, ainda, da longa viagem que fizemos - tu não, que estavas empenhado na tua arte, com prazos para cumprir... - a Macau, Hong Kong, China... Enfim, foi-se de nós um homem bom, um cristão zeloso, um chefe de família exemplar, um cidadão empreendedor que honrou o trabalho e o país que nos viu nascer. O seu exemplo inspira-nos, Elias. Morrer assim, sem aviso prévio, não devia ser permitido! Pelo menos devia ser tão previsível o desenlace que nos permitisse um último abraço, uma última conversa sobre a vida vivida...
    Ele está onde desejava estar, com Cristo, o seu Senhor!
    Abraço-te, e espero que a nossa próxima conversa seja sobre o que ainda há para viver - projectos, coisas úteis, serviço que mereça o reconhecimento dos que amamos.
    5 de Janeiro de 2026

    


                                                        Joaquim João Machado Grácio
                                                        (1945-2025)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Exijamos que se baixe os impostos...

    

Texto antigo, a propósito do aumento de impostos antes de depois da chegada dos credores, no início da década passada.

Fala-se, hoje, muito mais sobre o muito que se paga.

Exige-se pouco que se diminua a carga de quem vive do rendimento do trabalho, seja ele qual for,,,

«Há vezes dou por mim a «contabilizar» os custos da crise! Agora que estamos no fim do ano civil e o Fisco vai apurar o que ainda devemos (a retenção na fonte vai enchendo os cofres públicos todos os meses e esses milhares de milhões de euros «aliviam o orçamento» público em detrimento dos contribuintes, que deviam ter opção de pagar o que fosse devido no fim do ano respectivo...), é bom que tenhamos noção do sacrifício que nos foi pedido nos últimos 6 anos... Cada um sabe de si, mas a comunidade é formada por todos e deve saber quem paga e quem não paga... Cá pelo nosso lado, feitas as contas, se estivessem em vigor em 2014 (orçamento de 2013) as regras de 2008 (orçamento de 2007) teríamos pago, pelo mesmo rendimento familiar, menos de metade do que pagámos! Em 6 anos, para nós cá em casa, a crise exigiu-nos um sacrifico superior a 100%! É obra. A nossa resiliência esteve à prova... O que nos reservará a liquidação em 2015, referente aos proventos de 2014? Nem queremos imaginar...
Se pudesse, em 2015, aliviava a carga fiscal que carrega as famílias que suportam a crise desde 2008. Compensava a receita fiscal, em orçamento rectificativo, impondo maior carga fiscal sobre a importação de bens não essenciais (veículos, aeronaves, navios de recreio, concertos milionários de artistas extra-comunitários, animais exóticos... basta de exemplos!), sobre o consumo de bens nocivos à saúde (não faltariam exemplos...)... e mais não digo!
Reuniria os contributos das famílias que pagam a crise e elas dir-me-iam onde encontrar a receita alternativa...»





Custa mais a prisão do inocente...

Recupero o que escrevi e publiquei, há onze anos, e não retiro nada:

   « A justiça é feita por homens e mulheres, que podem, querendo ou não querendo, elaborar em erro. Castigar um inocente deveria ser, teleologicamente, uma impossibilidade. Por isso, sustento que mais vale mil culpados à solta do que um inocente (apenas um!) a cumprir pena. É muito comum prender sem condenação (preventivamente) pessoas que, depois, se verifica estarem inocentes. Muitas vezes, a aplicação dessa medida preventiva é usada como «instrumento», nomeadamente para lograr recolher meios de prova da prática dum crime, o que é uma indignidade. Só em casos excepcionalíssimos (taxativamente consignados na lei e não deixados ao arbítrio dos juízes) essa medida drástica de prender alguém sem condenação deveria poder ser adoptada.

    A prisão do inocente é mais dolorosa do que a morte! A prisão do inocente rouba-lhe a dignidade! A prisão do inocente é um acto de barbárie! À vezes, um acto de cobardia, represália, de abuso de poder...
Se pudesse, em 2015, alterava as normas de processo que regem o regime das medidas preventivas relativamente a pessoas indiciadas de práticas criminosas. Arriscaria que pudessem subtrair-se à justiça alguns criminosos (por poderem fugir, perturbar as investigações ou até prejudicar a aquisição, conservação ou veracidade da prova). Admitiria, muito apertadamente, que se tomasse a medida de prisão preventiva, se outras não fossem adequadas, quando estivesse em perigo a vida de alguém ou a repetição de crimes contra as pessoas. A poupança no orçamento das prisões seria imediatamente aplicada no reforço da segurança de pessoas e bens!»