segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

E se nos morre um amigo sem aviso...

    Elias, meu amigo, reitero o que, em mensagem de voz, te disse na passagem de Ano: "A amizade alimenta-se com gestos simples. Não precisamos de a manifestar, amiúde e exuberantemente. Passou mais um ano e assinalo o facto com um abraço virtual, com a promessa de um dia destes, o podermos concretizar "a sério", com pancadinha nas costas, como é nosso hábito!".
    Queria falar-te a propósito de alguns tópicos deixados em aberto na nossa troca de correspondência. Falámos deles mas não os registamos. Voltarão a ser tema de troca de opiniões neste novo ano, estou certo disso. Não lhes percas o rasto... aliás, fazem parte do nosso modo de ver o mundo que, de uma ou forma, voltarão a ser relevantes. Os assuntos da amizade, da solidariedade, da fraternidade, das pessoas que são referência para ambos e que nos interpelam não perderão nunca sentido entre nós, estando vivas ou já a descansar da jornada que chegou ao fim...
    Quando te saudei, naquela mensagem, ignorava eu que o querido amigo comum, o JJM. Grácio, "já descansava no Senhor", o estado depois da morte, nas suas próprias palavras. Lembras-te, desde a nossa juventude, da intensidade com que vivia, o ardor que colocava nas causas que defendia, o empreendedorismo permanente como meio de alcançar objectivos financeiros que dessem estabilidade à família... 
    A morte não nos surpreende, mas se ela nos leva os amigos de longa data, sem aviso prévio, sem um sinal de que isso está iminente, ficamos sem chão. Ultimamente, falamos pouco, eu o o amigo Grácio, nosso irmão.Revi os meus apontamentos e recordo que lhe mandei, escrita, uma pequena mensagem na passagem de ano de 2024. Não tive resposta - o que não estranhei, porque, para ele, nas novas formas de comunicação se resumiam ao telemóvel para fazer e atender chamadas - e, uns tempo depois, liguei-lhe. Não atendeu. Devolveu-me a chamada, algum tempo depois, e eu próprio não atendi, já não sei bem por que razão... Isto para dizer que fiquei chocado com a notícia da sua morte, e soube-o já o féretro tinha sido realizado... Nem sequer tive oportunidade de participar das cerimónias do seu sepultamento. Para mim é certo que também não soubeste da sua morte pois ter-me-ias dito. Dou-te eu a notícia: No dia 19 de Dezembro de 2025 (creio ter sido nesse dia, ou talvez no dia 18...), acordou, de madrugada, com dores. Foi levado ao Hospital, Visto nas urgências, recebeu alta pouco tempo após ter dado entrada. Regressou a casa, acompanhado, e passadas algumas horas voltou às urgências do mesmo Hospital, acabando por falecer, minutos depois da meia-noite desse dia. Os médicos, na segunda ida às urgências, terão realizados exames mais rigorosos e concluído que havia um derrame no abdómen (na artéria aorta?) que já não tinha solução, clinicamente falando. A família - esposa e filhos - foram chamados e estiveram junto dele até ao desenlace, que foi tranquilo, um adormecer sereno...
    Tudo natural, concordas. Talvez - fica a dúvida - se o tivessem acompanhado com mais rigor na primeira ida às urgências o desenlace não fosse aquele. Uma intervenção cirúrgica salvar-lhe-ia a vida? Sabe-se lá, agora... Não vou especular sobre isso, tanto mais que a informação que me deram é escassa e pouco técnica.Para a mulher e filhos seria penoso discutir a suficiência ou não do cuidado médico empenhado na primeira observação em Urgência. Talvez os médicos tenham sido «instrumentos» para o libertar deste «vale de lágrimas" em que se sentia, aos 80 anos, como "peixe fora de água"... Há pessoas assim, que, sem o saber, estão em busca de algo melhor, etéreo, a concretização do ideal de «viver para sempre» sem dor, lágrimas, desilusões... Risca da lista dos nossos amigos comuns o amado Grácio. Não esqueceremos o percurso que fizemos na nossa juventude e a saudade que temos desse tempo.
    Lembraste, Elias, quando o Gracio nos surgiu, agente da PSP, em Luanda? Passado pouco tempo, renunciou à carreira e deu início à actividade comercial, na qual, com muito trabalho, foi bem sucedido. Não fora a guerra civil, a necessidade de segurança, teria sido, estou certo, uma referência de sucesso como empresário... Lembramo-nos do ar fresco da brisa do mar que apanhamos na Ilha, com uma Cuca à frente... O seu prazer convivial cativava-nos. Lembramo-nos das vistas do Douro, na Régua a que descíamos, vindos de Sanfins do Douro, a sua terra natal, onde se instalou no retorno de África. E das últimas conversas em Coimbra, com o Mondego a correr por perto... Eu lembro-me, ainda, da longa viagem que fizemos - tu não, que estavas empenhado na tua arte, com prazos para cumprir... - a Macau, Hong Kong, China... Enfim, foi-se de nós um homem bom, um cristão zeloso, um chefe de família exemplar, um cidadão empreendedor que honrou o trabalho e o país que nos viu nascer. O seu exemplo inspira-nos, Elias. Morrer assim, sem aviso prévio, não devia ser permitido! Pelo menos devia ser tão previsível o desenlace que nos permitisse um último abraço, uma última conversa sobre a vida vivida...
    Ele está onde desejava estar, com Cristo, o seu Senhor!
    Abraço-te, e espero que a nossa próxima conversa seja sobre o que ainda há para viver - projectos, coisas úteis, serviço que mereça o reconhecimento dos que amamos.
    5 de Janeiro de 2026

    


                                                        Joaquim João Machado Grácio
                                                        (1945-2025)

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