Meu caro Elias, não ocultas as tuas posições sobre o modo como se devem conformar as relações entre quem trabalha e quem dá trabalho, ou melhor dito, a maneira mais «científica», entre patrões e empregados ou trabalhadores e empresários. Para ti, no mundo do trabalho, há os que trabalham e os que têm emprego, os que investem para ganhar muito dinheiro, rápida e facilmente, e os que arriscam na criação de negócios com potencial para responder às necessidades do mercado e com naturais e permanentes preocupações sociais. E tiras, geralmente, dessa tua forma de ver as coisas ilacções nem sempre consensuais ou politicamente correctas e suportas, etoicamente, criticas dos teus amigos, colegas, conhecidos... É verdade que já não estás no mundo do trabalho e raciocinas mais em função da tua experiência passada e dos valores que te são próprios do que em função das novas realidades que fluem e são pertinentes nas discussões actuais, em regra assumidas pelas associações sindicais e patronais.
Não vou criticar-te por afirmares, há muito tempo, que o princípio fundamental que deve nortear quem ocupa um posto de trabalho é o da disponibilidade absoluta, durante o respectivo horário, seja qual for a tarefa a desempenhar, sem prejuízo dos tempo de paragem que cada uma exige (não se pode exigir a um motorista de autocarro de passageiros que passe sete horas ao volante, sem descanso... Não seria bom para o próprio, para o dono do negócio, para a segurança rodoviária e para terceiros, em geral...). Evidentemente, a produtividade depende dessa entrega, também. E a devoção ao que se faz pode acrescentar ganhos consideráveis no que concerne ao «produto final» (com gosto, empenho, dedicação custa menos tocar uma partitura, tal qual está escrita, do que executá-la sem erro, meritoriamente, mas por «dever profissional»... a diferença está no resultado que chega aos ouvintes: com gosto, toca mais o coração...), ao objecto do negócio, ao resultado da tarefa.
Todavia, não é exigivel ao que trabalha, afincadamente, que alcance sempre melhores resultados, seja mais proficiente, sem oportunidades de actualização, por via da formação, sem progressões no reconhecimento profissional, sem melhor salário, sem garantias de efectivo descanso, sem disponibilidade para constituir família, cuidar da prol, ter tempo de lazer... Nem ao escravo se podia exigir mais produtividade sem melhor alimentação, melhor habitação, mais tempo de descanso... Os que o faziam não ponderavam a importância no êxito do negócio de ter uma activo valorizado... Até nessa execrável relação, entre senhor e escravo, se poderavam as vantagens de investir no cuidado dos que produziam...
A questão da produtividade ou da falta dela é recorrente. É quase o slogane das entidades patronais ou empreendedoras; é sempre o dilema das associações sindicais quando confrontadas, nas negociações para estabelecer melhores condições de trabalho, com as estatísticas que comparam o desempenho no país e fora dele. Discutimos isso com frequência e tu sublinhas que, em geral, a menor produtividade do trabalho se deve ao escasso empenho de quem trabalha, não tanto, antes de tudo, às próprias condições em que trabalha. Dizes mesmo que nas mesmas condições de trabalho, uns produzem cinco, outros dez... Os que produzem menos, para ti, são o que têm um emprego e esperam mantê-lo a vida inteira (exemplificas com o emprego público...); os outros são os que se realizam no que fazem (por escolha própria ou não, a tarefa a seu cargo é para desempenhar no horário e nas condições estabelecidas, sem tempos de descanso não previstos nem tempos mortos para pensar noutras coisas, misturando trabalho e lazer...)
Compreendo tudo, vejo o que sustentas no teu próprio exemplo (se, no tempo previsto, o que devia ser feito não o foi, por razões próprias ou alheias, não guardavas trabalho para o dia seguinte - vá lá, mais um esforço, mais uns minutos...) mas os tempos mudaram, os trabalhadores têm sempre razões para não começar a horas (o comboio atrasou-se, o autocarro avariou, furou um pneu, havia nevoeiro, uma enchente por causa da chuva da noite...) e também para não ficarem nem mais um segundo (têm os filhos à porta da escola, o ginásio onde jogam futebol de cinco, a mulher para ir buscar ao emprego...). Acredito que é possível (necessário é de certeza, se queremos melhor retribuição...) alcançar outros níveis de produtividade alterando aspectos relevantes das Leis Laborais no que concerne à cessação da relação de trabalho sem enfraquecer nenhuma das partes dela. Bastaria que ambas estivessem vinculadas aos resultados da respectiva empresa, quer no que concerne à produtividade, por um lado, quer no que concerne à distribuição dos dividendos, havendo-os. Trabalhadores accionistas, capitalistas com responsabilidade social...
Enfim, vamos esperar que a anunciada greve se faça, que os trabalhadores (penso que vão ser mais os que têm emprego...) voltem ao trabalho e se sentem com os patrões... ou com o Governo! Depois da greve, vamos ter novas leis, talvez mais adequadas para garantir que a distribuição da riqueza se fará de modo justo uma vez que a greve também foi para aumentar a ...produtividade! (Se não acrteditas, ao menos não te rias da minha credulidade...).
Com a estima de sempre,
José Manuel Martins
9 12 2025
PS: Não venhas, a seguir, dizer-me que o tempo da luta de classes já lá vai e que o mal está no facto de ainda haver quem acredite que o mundo muda se uns lutarem contra os outros - patrões contra trabalhadores. Podes eliminar a «luta de classes» mas o conflito de interesse, não. A menos que, no processo de criação de riqueza, consigas que todos dêem as mãos...
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