terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A velhice é natural...

Meu caro Elias:

Recebi a tua missiva. Levantei-a, hoje, na caixa de correio. Pela data que lhe apuseste já estava depositada há uns dias. Cada vez recebo menos correspondência em suporte de papel e, muito menos, manuscrita...  Levou algum tempo a decifrá-la: a tua letra já tem alguma tremura, meu amigo. Para não denunciar essa «fraqueza» é que não te imito: vou escrevinhando no teclado. Conheço bem o teu argumento para continuar a usar caneta e papel (e vir a pé deixar a correspondência na minha caixa...): na nossa idade, quanto mais actividade física, melhor! E diversificar os movimentos é essencial. Tens toda a razão! Em boa verdade, algumas vezes também me socorro de lápis e papel para uns rascunhos prévios, um ou outro esboço do que pretendo, depois, passar a limpo. Tomara que todos os homens  da nossa idade te imitassem. Certamente manteriam a vitalidade da juventude que tu revelas!
Depois de decifrada a tua carta, concluo que a nossa conversa, no seguimento do que te escrevi a propósito de «Ser velho e maltratado», valeu a pena. 
Com efeito, afirmas tu, «a velhice é uma condição natural e deve ser aceite, compreendida e respeitada». Estamos de acordo! Aliás, debatemos isso e também as questões que se prendem com a qualidade com que deve ser vivida. Eu considero - embora não tenha merecido o teu apoio, mantenho isso - que a evolução da sociedade não vai ser no sentido de criar condições mais propícias para a dignificação da velhice. Por um lado, a ciência e a indústria farmacêutica investem em novas «substâncias activas» para prolongar a existência dos idosos; por outro, os governos nacionais, especialmente aqueles que se legitimam pelo voto, destinam cada vez mais dinheiro, arrecadado em impostos, para «favorecer» esse grupo etário. Parece que as «filosofias políticas» tidas mais de esquerda consideram que a forma de perpetuar o poder implica mantê-lo satisfeito. Se os idosos tiverem a percepção de que o «governo está a aumentar as reformas e pensões», isso favorece o voto nos incumbentes que se arrogam patronos dessa política de «não deixar os idosos para trás»... Mas há outra questão, a meu ver fundamental, que não augura «bom futuro» para os idosos: é a atitude das gerações mais novas. Sim, como afirmei, para elas os pais e avós já são um encargo (salvam-se todas as excepções, como é comum dizer-se...), e sê-lo-ão ainda mais no futuro: os novos velhos não terão tantas condições de auto-suficiência económica, os governos vão exigir mais impostos a quem trabalha para manter as políticas de «prolongamento da vida», os encargos com Lares, cuidados paliativos, outros apoios necessários recairão sobre as famílias, que não estão preparadas para os suportar... 
Ou seja, Elias, apesar de não concordarmos, a velhice do futuro vai ser muito sombria. Eu diria, se ainda tivesse de viver esse futuro - e olha que não é tão longínquo assim... - que «viver por viver», em solidão ou aprisionado, com outras pessoas nas mesmas condições, sem laços familiares fortes e vida activa com significado, deve ser muito penoso. Evidentemente, há os que se destacam pela sua robustez física, saúde mental e força anímica para, por si, levar a velhice adiante e morrer de morte natural durante o sono... Aliás, como me confessaste que querias terminar os teus dias! Nisso concordámos e apertámos as mãos...
Um dia destes, retomamos o assunto, até porque dizes no teu manuscrito que «o amor que sentimos pelos que nos estão próximos dá-nos razão para continuar a viver sem queixume»...
Recebe um abraço,
2 de Dezembro de 2025

2 comentários:

  1. Parece que o Elias é um idoso bem jovem...

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  2. Ele é, essencialmente, um homem que está de bem com a vida e entende os desafios que se colocam, no tempo presente, às pessoas idosas que carecem de afecto e companhaia...

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