Às vezes sonho com Zau-Évua… Do passado. Dos laços da guerra, dos entre laços que se gizaram…De quando em vez lembro-me do título do meu livro Zau-Évua, terra de ninguém, sítio de vivências, e como foi, em grande parte, doloroso escrevê-lo. Agora o livro não é meu, pertence aos leitores, um dos quais deixou este texto apreciativo, que encontrei, por acaso, na Net:
JOSÉ MANUEL MARTINS
A guerra colonial, ou guerra de libertação conforme o ponto de vista, é uma inevitabilidade na literatura, embora seja, ainda, de produção bastante reduzida. Ainda há muitos “fantasmas” escondidos atrás do armário…
De qualquer modo, ela, a literatura de guerra, lá vai surgindo, tímida.
O autor que trago, nascido em Rio Tinto, Gondomar, completou o ensino secundário em Luanda, no Liceu Salvador Correia. É hoje licenciado em Direito. Em 1973 foi mobilizado para cumprir o serviço militar. Daquela experiência nasceu um livro: “ZAU-ÉVUA – TERRA DE NINGUÉM, SÍTIO DE VIVÊNCIAS”, publicado em 2003 pela mão do editor Pedro Miguel Martins, filho do autor.
Em Zau-Évua, situada algures entre Ambrizete e S. Salvador, no norte de Angola, vivia-se em pleno teatro de guerra. O que se quer contar neste livro é que “muitos não compreenderão grande parte das dificuldades por que passaram os jovens militares, há trinta anos atrás, quando foram mobilizados para prestar serviço em regiões desconhecidas, inóspitas e perigosas. Em particular, os jovens de hoje não as entenderão. Podem, porém, aproveitar-se das nossas experiências e da forma como enfrentámos as situações novas e difíceis, quase sempre em ambiente de grande adversidade, como reagimos às contrariedades, como preservámos as nossas convicções, como testámos a nossa fé, para enriquecimento pessoal.”
A vida dentro do aquartelamento, isolado no meio da floresta, longe de tudo o que fosse civilização, levava a que todas as manifestações dos jovens soldados fossem levadas a situações patéticas, crianças grandes ora alegres ora tristes, procurando lutar contra o isolamento e o medo.
“A vida do quotidiano era fértil em actos de puro exibicionismo, normalmente ligados ao desempenho sexual e aos relatos, uns imaginados, outros reais, mas exagerados, de conquistas femininas (os relatos referiam-se quase sempre às conquistas de S. Salvador e Ambrizete, pólos civilizados onde era possível, por força do cumprimento das missões respectivas, permanecer muitas horas seguidas.
Evidenciavam, com frequência, linhas de fractura relacionadas com a cor da pele, o desafogo económico, o nível cultural, a região de origem, o dialecto falado, a qualidade da droga consumida, as discotecas e bares frequentados na vida civil. As disputas tendiam a acentuar o ascendente, algumas vezes mais fictício do que real, dos jovens luandenses, brancos e mestiços, sobre os demais. Os soldados da Companhia eram, em grande parte, de incorporação angolana e muito ecléticos na sua mundividência.
Tornava-se patético que a manifestação desse “ascendente” implicasse a amostragem do pénis erecto, ao levantar da cama…”
Mas, para o autor, estas manifestações incomodavam-no:“A minha sensibilidade moral obrigava-me, umas vezes, a tomar atitudes de reprovação explícita dalgumas atitudes e exageros; outras vezes, “neutralizava-me”, o que me fazia sentir ainda pior.”
Assim, através de inúmeros relatos de episódios como este se vai desenrolando a convivência forçada de um grupo de jovens, levados a combater uma guerra que muitos não compreendiam, sós e transportando com eles, muitas vezes ou quase sempre, o medo de morrer. Situações que talvez só quem tenha passado por elas possa compreender na totalidade.
E houve centenas de Zau-Évuas em Angola…

Sempre foi assim: se damos, deixa de ser nosso! Acredito que não seja fácil recordar acontecimentos que nos respeitam quando a sua circunstância é a guerra (e guerra é guerra, seja ele o contexto em que ela ocorre, com mais ou menos vítimas, com mais ou menos sequelas). E mais difícil se torna para aqueles que nunca se libertaram (não por culpa própria, mas porque psiquicamente ficaram irreversivelmente afectados)dos medos, dos traumas, das violência que sofreram e praticaram, das injustiças, das traições....
ResponderEliminarAo menos Zau-Évua, do que recordo dele, é um livro onde não se ajustam contas, não se fazem juízos definitivos acerca das pessoas, dos homens que fizeram a guerra, antes se evidenciam fragilidades, modos de estar, atitudes face à mesma circunstância para dezenas e dezenas de jovens, de origem social variada. Zau-Évua é uma lição de vida na qual muitos leitores, como eu, se identificarão.