terça-feira, 11 de novembro de 2025

Angola em memórias...


Elias, meu amigo e irmão,

Os sonhos que ambos tivemos esboroaram-se, em certa medida, quando a força do slogane «O MPLA é o Povo e o Povo é o MPLA» se mostrou à evidência... Aparentemente, um simples «cartaz» de campanha política, a mensagem revelou-se premonitória do que sucederia: uns, os do povo mpla, contra todos os outros que não eram povo por não serem do mpla! Eu não sei e, provavelmente também não saberás, se essa mensagem já foi estudada, descobrindo as razões da sua eficácia instantânea na mobilização de todas as energias contidas para implantar um projecto totalitário, elitista, dirigido do exterior, em prol de interesses que não eram os de Portugal, dos angolanos, nascidos no território ou nele inseridos como terra sua também, nem dos «vários povos» que Angola tinha (e tem...). Esse slogane, associado ao outro, artificial, todavia conveniente, definidor das fronteiras, que afirmava «Angola: de Cabinda ao Cunene», constituíram, por si mesmos, o programa político que juntou armas, entregou-as às milícias em geral e às milicias das crianças em particular, concitou apoio internacional, que se traduziu em milhares de homens, em armas poderosas e mortíferas e dividiu quando dizia querer unir...

Isso é da história e já não conta muito para os que, 50 depois, se reúnem em salões de fausto para falar em nome de todas as conquistas que o «povo e o mpla» alcançaram. O certo, porém, é que os mortos que ficaram pelo caminho - os que acreditavam que uma só etnia era todo o povo, que as demais nem sequer podiam assumir as suas diferenças culturais, linguísticas, geográficas... - são marca indelével de que tais conquistas exigiram muito sangue inocente, quiça também comprometido com a ideia de que a pluralidade étnica podia conciliar-se no propósito de «um só país de muitas nações» (recordando as origens das várias parcelas populacionais do território é fácil concluir que constituíam diferentes nações, se preferires, diferentes povos...). Ignoro, hoje, o que se passa nesse capítulo: Também prevaleceu, sem margem para dúvida, o slogane de que, afinal, em Angola há tão somente um povo? O povo da linha Malange-Luanda, Luanda-Benguela impôs-se, definitivamente, e, agora, não há espaço para outros povos, outras línguas, outras culturas? Todos um só pelo slogane e pela língua... portuguesa? Como é também certo que a miséria, em geral, se multiplicou. Com os recursos que Angola teve e tem justifica-se a diáspora de angolanos jovens, que não conheceram a administração portuguesa, por várias partes do mundo, incluindo Portugal, onde muitos se sujeitam a viver abaixo do nível geral dos portugueses (bem sei que costumas dizer que os há também quem vêm gastar aqui o que lá «ganha» facilmente...).

A história é o que é e está documentada. Podia ter sido diferente porque ela é feita de decisões, de opções, da concretização de planos e programas humanos. E as circunstâncias gerais e particulares, ao tempo, contam decisivamente para a melhor compreensão - não justificação - do que aconteceu. Seguramente, matar quem discorda de nós não se justifica, mas, convenhamos, é o processo mais simples de impor o que se quer... O que importa, agora, é o contributo que damos para a conciliação, para o desenvolvimento das relações que interessam às nações, aos povos respectivos, às gentes que vêem na história traços de união que, há 50 anos, não foram considerados, foram até desprezados, vilipendiados.

Haverá, certamente, resquícios daqueles sloganes nos discursos de hoje, em Luanda. Vão ser audíveis pelos portugueses, representados ali ao mais alto nível. O mais importante é que, em consciência, se reconheça que 50 anos é pouco tempo na vida de um país, mas é bastante para se concretizar malfeitorias sem fim, lançar raízes de ódio que um dia frutificarão, infelizmente.

Pessoalmente, afloraremos, enquanto respirarmos, as nossas histórias comuns e de cada um sobre o que foi e poderia ter sido a vida dos povos que alguns quiseram que fosse apenas um (por domínio ou extermínio dos outros...).

Com amizade, estou aqui para te ouvir.

Abraço-te.

11 de Novembro de 2025

Dia da celebração dos 50 anos da independência de Angola.

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