domingo, 16 de novembro de 2025

A «especificidade» do conhecimento...

 Elias, meu amigo, hoje, em público, relembrei a nossa troca de correspondência a propósito da interpelação «O que significa Cristo para ti?» ou, se bem me lembro, com esta formulação mais exacta: «Quem é Cristo para ti?»  Veio a talhe de foice numa breve alocução (só tinha 5 a 7 minutos para partilhar algo que pudesse enriquecer a reunião exclesial domingueira, matinal...), sem que constasse dos meus tópicos, previamente preparados. Mas não foi despropositada porque eu queria, na verdade, sublinhar o fulcro do desafio que Cristo dirigiu ao seu núcleo restrito de amigos, de quem queria ouvir o que sabiam sobre Ele além de tudo o que tinham ouvido do povo.

Conheces bem a interpelação e o que disseram os seus amigos sobre o que o povo sabia pelo que, agora, não vou repetir isso. Apenas lembrar que, no contexto do texto do Evangelho S. Mateus, capítulo 16, havia uma nítida intenção da parte de Cristo de virar a atenção dos discípulos para o que adiante aconteceria.

Eles não podiam, de facto, enxergar as vicissitudes do caminho a percorrer sem, primeiro, terem por certa essa verdade fundacional, dita por Pedro: «Tu és o Cristo...». Portanto, o contexto e o próprio diálogo referem-se «às virtudes» do conhecimento. O dos mestres religiosos, empírico, tinha proveito e a capacidade demostrada para entender os fenómenos da natureza e devia estar ao serviço do entendimento das coisas mais prosaicas da revelação profética, que tinham à mão. Deviam interrogar-se sobre a revelação profética, tirando dela proveito para ler os sinais dos tempos. Então, depois de tantos milagres observados, só acreditariam em Jesus se fizesse mais um «vindo do céu»?!

Parece evidente que, desse ensino, os discípulos deviam extrair a lição de que há muito a alcançar acerca do conhecimento das coisas de Deus, que exige esforço, aplicação para entender os sinais dos tempos que estão à frente dos olhos...  Faço aqui um parêntesis para que me digas se, hoje, nos tempos que correm, estamos a dedicar tempo e saberes para ter uma perspectiva correcta do que se está a passar no mundo no que concerne à implementação do reino de Deus. Penso que  estamos a ser levados na corrente daqueles que pensam que se há guerras, sempre as houve, se as alterações climáticas nos preocupam, sempre preocuparam, se o mal se manifesta em aberrações incomuns,  absurdas, inumanas, sempre se manifestou, se o tempo da revelação de Cristo nunca mais acontece, sempre foi tido por tardio... e o mais que possas imaginar...

Evidentemente, nem todo o conhecimento deve ser subscrito, sem mais. Justifica-se tomar cautela para, dentro do que é sabido, acessível, ao dispor, há o que está errado. Bem sei que não tenho necessidade de anotar que, para ti também, o «fermento» dos fariseus e saduceus não se compaginava com a mensagem nova, fresca, que Jesus ensinava aos seus seguidores. Podiam conhecer as doutrinas desses grupos mas elas não podiam «levedar» o ensino que Jesus lhes ministrava.

 A ideia de controlar - diria melhor, aferir - o que interessa dentro do muito que sabemos é fundamental para manter limpa a alma e não enfraquecer o espírito! O errado fazia o seu caminho e enleava o povo. O ensino novo devia manter distância e afirmar-se, à volta da figura do Mestre, com sinais, prodígios e maravilhas. O sinal do profeta Jonas era importantíssimo para aferir o tempo e os acontecimentos mas a multiplicação do pão e do peixe sobrepunha-se na dinâmica de implatação do reino novo, de que aqueles homens seriam embaixadores. Fora com o fermento daqueles mestres! O pão novo levedava no coração dos que vislumbravam nos actos de Jesus o miraculoso vindo do Céu.

Mas o Mestre queria ainda que soubessem mais do que aqueles doutores e que fossem além do empirismo popular que identificavam a sua acção com a «prática» de profetas passados (talvez até da de algum que tinham conhecido e agisse diferentemente dos saduceus e fariseus...). Queria que, face ao vivenciado até então - a sua vocação, o trabalho conjunto, as horas de aprendizagem, a participação nas acções miraculosas... - declarassem um «conhecimento mais específico». A demanda sobre quem Ele próprio era foi feita ao conjunto dos seguidores. Um, o mais ousado?, disse logo, em nome de todos (penso que não surpreendeu os demais...) que  era o Messias, o Filho de Deus... Estranho, muito estranho para aqueles homens, que tinham conhecimentro das doutrinas dos mestres religiosos e sabiam também o que o povo pensava, uma tal revelação. Afinal, em geral, a ideia de Deus era unitária... Mas ter Deus um Filho? Que estranho... Mas era a especificidade desse conhecimento declarado que lhes permitiria vislumbrar - e aceitar...- o horizonte futuro que o Mestre lhes queria revelar.

Pois é, Elias. E tu sabe-lo: o conhecimento do que está à frente dá muita vantagem ao que o possui! O que se espera não surpreende! E aqueles homens, para desempenhar a missão para que estavam a ser instruídos, precisavam mesmo de saber que, feita a descoberta da filiação divina do seu Mestre, que viria, de seguida, a espinhosa experiência de levar cada um a sua cruz, à semelhança daquele que os ensivava... Imagina se a igreja, fundada sobre a declaração de Pedro - subscrita por todos, estou certo - não pudesse contar com a entrega total daqueles homens! Mas o conhecimento é salvífico! Deu-lhe o poder de encarar o futuro sabendo que as coisas se passariam de determinada maneira... É verdade que, em determinados momentos, por esquecimento momentâneo, vacilaram. Mas isso é humano. Não vacilamos, hoje e agora, no nosso quotidiano, tantas e tantas vezes? Só o conhecimento comum sobre uma determinada realidade nos pode unir para o cumprimento de uma missão como aquela de que Cristo incumbiu os discípulos. O lamentável, Elias, é que não temos muitas certezas agora sobre o fundamento da fé dos que se identificam religiosamente com Cristo. Daí a imperiosidade de insistir na verificação de que a unidade assenta nessa declaração, vívida e actual, de que todos sabemos e declaramos que Jesus é o Messias, o Filho de Deus! Assumir isso é elementar, meu amigo, sob pena de, à mínima turbulência, o edífico construído se desmoronar, cada pedra para seu lado, por faltar o «cimento» que une: esse reconhecimento comum da divindade de Cristo!

Não me leves a mal por este arrazoado todo. Mas eu citei a nossa correspondência sobre o tema e não queria que soubesses por outrem que invoquei, como exemplo de relacionamento identitário, a nossa amizade.

Não te remetas ao silêncio! Não diremos tudo bem, não seremos, quiçá, unânimes em tudo, mas no que a este conhecimento específico diz respeito estamos juntos de coração.

Abraço-te, atº

 

16 de Novembro de 2025

 

PS: Ia omitindo uma outra referência que fiz e ela respeita-nos porque vivenciamos a situação juntos: Que este texto de Mateus 16:16 é-nos muito familiar há dezenas de anos. Lembraste agitação luandense com o empoderamento do tocoísmo, do sabatismo e das doutrinas dos propaladores da Torre de Vigia (o jeovanismo militante e o seu unitarismo) quando, em 1975, tudo valia? A coragem que demonstrámos em afirmar que o essenciall era manter a fidelidade a essa convicção da nossa juvenil afirmação: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus».

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