segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A prioridade é prevenir...

Caro Elias,

Não esperava tão célere reacção à missiva que te enderecei, precisamente ontem! Até parece que o assunto estava, para ti, «na ordem do dia»... O que sublinho foi tu teres escrito que «sai mais barato prevenir do que apagar» e dás o exemplo do custo da utilização de helicópteros nas tarefas de extinção dos incêndios florestais. 

Os números são mesmo impressionantes e fazem-nos pensar: E se em vez de alugar ou comprar essas máquinas, que voam, transportam e derramam água sobre as florestas em chamas e são tão reclamadas pelas populações aflitas, investíssemos os respectivos milhões de euros em formar bombeiros sapadores e proporcionar-lhes ferramentas de trabalho adequadas? E como bem observas, não são prioritários carros de combate a esmo, que todas as corporações querem no seu parque de estacionamento! Aliás, até nisso é possível gerir de forma eficiente, avaliando as necessidades do país e distribuindo os meios de acordo com as efectivas necessidades. Se quem pode comprar um veículo moderno o tem de deslocar centenas de quilómetros para lhe dar uso no ataque a um fogo florestal... Não faz sentido: os meios devem estar onde são necessários, o que exige visão global, pensamento estratégico, sentido de missão de quem tem o comando das operações!

Mas o essencial, parece-me, é a ênfase que dás à prevenção e aos «desperdício» que representa ter equipamentos sofisticados estacionados (a alternativa é tê-los, por aluguer, em determinadas épocas do ano, e pagar muito, muito mais por esse recurso...), a exigir permanentes cuidados de manutenção para estarem operacionais num determinado período do ano, sem definição muito precisa. Dás conta, e bem, dos helicópteros adquiridos para apagar fogos e, por falta de recursos para os manter operacionais, foram oferecidos para a guerra (parece que os ucranianos, face à escassez de equipamento militar para se defenderem, aproveitam tudo, até aparente sucata...). O respectivo custo teria sido bem aproveitado na vigilância, no cuidado das matas, florestas, públicas  privadas, criando e preservando riqueza, evitando as calamidades recorrentes, ou, seguramente, criando as condições para que qualquer incêndio deflagrado se tornasse «incontrolável»... Sim, ter meios para extinguir incêndios florestais é fundamental. Mas não é neles que deve estar a prioridade dos investimentos. Deve estar na prevenção...

Também acredito nisso!

Na minha missiva falei-te dos criminosos que ninguém controla, embora se conheça o respectivo perfil. Muito desse dinheiro, que usamos para despejar água, usando helicópteros, serviria para colmatar falhas de apoio social a estratos populacionais de onde emergem os incendiários... Sim, há respostas que não se dão porque as prioridades são outras. É mais fácil dizer que todos os meios estão no terreno para responder às necessidades das pessoas afectadas pelos incêndios - e dizê-lo em parangonas televisivas - , incluindo os mais modernos helicópteros do que ter que explicar, tim tim por tim, que o orçamento para a protecção civil foi gasto em trabalho de sapador, o ano inteiro, no apoio aos criadores de gado caprino, por exemplo, aos donos das matas e florestas, aos industriais do ramos com ligação directa á produçºao florestal, aos agricultores em geral, aos apicultores, às pessoas que vivem em áreas mais propensas à ocorrência de incêndios... É sempre mais difícil elevar o orçamento das juntas de freguesia para, em proximidade, colaborar nesse trabalho de prevenção pois se dirá que isso é «caciquismo político» ou outra coisa pejorativa do poder local... É sempre difícil explicar porque se apoia o turismo rural, a deslocação de pessoas para as áreas abandonadas para aí trabalharem, produzir , residir...

Vais ver, Elias, que o futuro no combate aos incêndios vai continuar a fazer-se com recurso a... helicópteros! Dá nas vistas, mesmo que, depois dos incêndios apagados, se vejam terras desoladas, negras, sem gente...

Bem sei que outras questões te suscitou a minha missiva Incêndios florestais sempre os tereis... Mas, por agora, não falemos mais de... incêndios.

Com a estima de sempre, abraço-te

10/10/2025



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