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Vamos voltar à Rua da Verónica, em tempos uma das vias mais importantes do bairro da Graça, em Lisboa, dando acesso ao Campo de Santa Clara, e a um «velho barracão», sito nessa artéria, que fora antes uma capela católica romana, também conhecida por Ermida de Nossa Senhora do Rosário, por substituição, em data incerta da primeira metade do século XVIII, de um nicho chamado da Verónica; a seguir ao terramoto de 1755, foi sede da paróquia de São Bartolomeu do Beato. Em Janeiro de 1918, a instituição religiosa erecta na igreja sita na Rua da Verónica, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, requereu ao Ministro da Justiça e dos Cultos a sua transferência para outra igreja, mas também que lhe fossem entregues as imagens e demais objectos de culto que aí estavam, o que foi deferido, cabendo-lhe a responsabilidade da sua conservação. Estando, nessa altura, a ermida fechada e as chaves a cargo da comissão concelhia do 1º bairro, ordenou o referido Ministro que devia a dita comissão providenciar a seu respeito, quer por meio de arrendamento quer promovendo que fosse destinada a qualquer fim de interesse social. A transferência da Irmandade e o encerramento do local ao culto justificou a secularização do edifício, que foi transformado num armazém de «ferro velho». Já nos anos de 1940, depois do despejo dos protestantes desse edifício, a velha capela foi utilizada como fábrica de malas.Foi nesse espaço que se passou a reunir um pequeno grupo de homens e mulheres que suscitava a curiosidade dos pacatos moradores, que viam passar um «estrangeiro alto de aspecto marcial» que para ali se dirigia. Quando, à noite, as portas se abriam, na rua ouvia-se a voz desse homem entoando desconhecidas músicas para os ouvidos ainda lembrados das celebrações em latim dos antigos frequentadores daquele templo. Não tardou que a curiosidade dos mais afoitos fosse satisfeita, espreitadela após espreitadela, enquanto o estrangeiro entoava cânticos que os presentes, poucos, ainda estavam a aprender. Não passou muito tempo até que toda a gente da Rua da Verónica soubesse que a antiga capela em ruínas, que fora entretanto armazém de velharias, era a «casa dos protestantes.
Exactamente aí, num espaço improvável, foi que esse cidadão sueco, antigo oficial da marinha do seu país, começara a missão de que o Senhor o incumbira. Ele abandonara, após a sua conversão e ter recebido do Senhor essa chamada, a brilhante carreira que fizera como militar e disponibilizara-se para vir a Portugal anunciar o evangelho de Cristo.
Essa primeira Casa de Oração, depois de muita procura, foi inaugurada em 21 de Janeiro de 1934 e nela, logo em Maio desse ano, se fez a primeira cerimónia baptismal, na qual foram baptizados os novos convertidos da cidade de Évora. Era necessário esse acontecimento para dar ao povo o exemplo do que implicava aceitar a mensagem por que tanto batalhava aquele estrangeiro, já conhecido de todos os moradores daquela rua lisboeta e suas redondezas. Mas não era fácil a tarefa e só em 18 de Novembro desse ano de 1934 foi baptizado o primeiro novo convertido da cidade de Lisboa, num grupo de quatro novas irmãs. De acordo com TS, «a oposição era tremenda, e o irmão Jack, que era um formidável músico e poliglota, ex-oficial da Armada Sueca, tinha agora de fazer todo o serviço nos cultos: pregador, organista e porteiro. Os seus únicos ouvintes, às vezes, eram os familiares e a criada, Joaquina da Mata, que mais tarde se converteu, sendo registada na igreja sob o número 2.»
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