Do Movimento Pentecostal em Portugal não há ainda uma «ideia cultural» de fundo, digamos assim, que integre e sistematize as questões de orientação geral que o caracterizaram durante cerca de 40 anos, em particular no que concerne ao ímpeto evangelístico, às dificuldades de relacionamento com a tradição católica-romana e demais cristãos da Reforma e Evangélicos instalados, à desconfiança inicial do regime corporativo quanto à implantação de igrejas locais autónomas, sob um padrão doutrinário e ético-moral comum, ao papel da juventude, à formação duma liderança nacional, às respostas às questões sociais tais como o apoio aos mais pobres, às crianças e aos mais idosos e outras vertentes da acção para conformação de valores típicos dum movimento novo, portador duma mensagem diferente.
O Movimento Pentecostal tinha um modelo que se caracterizava por um certo imobilismo doutrinário e social. Mudar só na sofisticação desse modelo, de resto «tudo como dantes, quartel-general em Abrantes» (o que permanece sempre na mesma, sem alteração). De certa maneira, esse modelo correspondia ao que se pregava e à forma como se assimilava o ensino na Casa de Oração da Rua da Verónica. O nosso João Sequeira Hipólito. Pastor pentecostal fundamentalista que procurava activamente a santificação não é, seguramente, suficiente para sustentar essa ideia cultural do Movimento em Portugal, mas dá um vislumbre da forma como se devia estar no mundo, como se devia agir para mudar a sociedade, mudando as pessoas.O jovem JSH viu o «modelo» aí, na Rua da Verónica, nessa já remota década de 1930. E o que é que viu?
Viu jovens motivados, empreendedores, convictos, sempre disponíveis e ao serviço a favor duma causa que, simplisticamente, correspondia a replicar o modelo de igreja do primeiro século. Não só na doutrina - que era a dos apóstolos – como na agressividade para romper o staus quo e renovar o panorama cristão nacional (afinal, foi quase sempre nas águas do catolicismo romano que os pentecostais fizeram as suas grandes pescarias...), mas na preservação de estilos de vida simples, poupando em tudo o que correspondia a vícios e lazer para se elevar socialmente em conjunto com a família. Sempre que queria alertar para desvios, aproximações aos padrões ético-morais do mundo, esfriamentos na fé, desmobilizações, falta de dinamismo, mas também quando verberava a atracção pelos costumes dos do mundo ou doutros grupos ou igrejas reformadas ou evangélicas, lá voltava ao que viu na Rua da Verónica...
É evidente que as sociedades mudam, os valores sobem e descem na escala de cada um, das organizações, das igrejas, dos Movimentos... É possível dizer-se que o «modelo pentecostal» de JSH, que exigia ruptura com o meio social envolvente em variadíssimos domínios por parte dos novos aderentes, em ordem a preservá-lo na matriz da Rua da Verónica, já não existe na substância. Por isso é que, para muitos, falar desse modelo é anacrónico neste tempo. Talvez a ligação ao presente se justifique por alguma semelhança na teologia, que se diz ser aquela que se estriba no ensino apostólico... Muitos dirão, diante de trabalhos como o nosso, que valem umas palavras definitivamente «exorcizantes», ou seja, falemos dessa experiência mas deixemo-la queda e muda como parte integrante do modelo que é caracterizado no muito que foi a breve mas intensíssima experiência pessoal espiritual, moral, doutrinária de JSH...
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