Ficam aqui duas histórias de antigamente:
I
«O dia estava lindo. De muitas partes de Portugal pastores, muitos deles fazendo-se acompanhar de suas esposas, reuniram-se para celebrar o dia. Começou com um culto na linda Casa de Oração de Seia, onde nos foi dado escutar uma entrevista gravada ,que há dez anos o irmão Tage Stählberg fizera com o pastor Plácido no dia em que fazia 90 anos. Nessa entrevista o irmão Plácido relata as suas experiências desde a sua conversão e fundação da Assembleia de Deus em Belém do Pará - Brasil, quando àquela terra chegaram os missionários Gunnar Vingren e Daniel Berg, e depois o começo da mesma obra em Portugal.À tarde celebrou-se uma reunião cultural no cemitério de Valezim, onde as Assembleias de Deus de Portugal tinham colocado uma bonita pedra mármore sobre a sepultura do nosso irmão, e entre outras palavras, gravado o versículo 3 do capítulo 12 de Daniel: “Os entendidos pois, resplandecerão como o resplendor do firmamento; e os que a muitos ensinaram a justiça, refulgirão como as estrelas, sempre e eterna mente.”
O pastor Tage Stahlberg leu o verso 15 do Salmo 116, fazendo alusão à vida do pastor Plácido, e advertiu em especial que estávamos ali não com o objectivo de ligar importância demasiada ao sepulcro do nosso herói da fé. Moisés foi enterrado por Deus mesmo e o sepulcro de Jesus ficou vazio no dia da Sua ressurreição. No primeiro caso nunca foi decretado luto oficial, no segundo a mãe de Jesus nem sequer teve tempo para vestir-se de luto...
Depois do pastor Hipólito ter orado, os pastores João Chasqueira e Alfredo Machado colocaram sobre o túmulo uma coroa de cravos com as cores das bandeiras brasileira e portuguesa. Fora do cemitério estacionavam dezenas de automóveis e pregadores tinham vindo di Portimão, Lagos, Setúbal, Lisboa, Santarém, Coimbra Castelo Branco, Porto e outros lugares. Muitos dos presentes eram íntimos amigos, alguns filhos espirituais de finado, e usaram a palavra, entre outros, os irmãos Chasqueira, José Barros de Sousa, José Ramos, J.L. Quedas, Durval Correia e o pastor da Igreja de Valezim, António Dias. Depois dum cântico, o pastor Alfredo Machado finalizou o solene acto com oração.
O cortejo de carros tomou rumo a Valezim, passando pela casa onde nasceu o pioneiro José Plácido da Costa, e entraram na sua residência, onde tantas testemunhas do Senhor tinham sido hospedadas e Confortadas pelo nosso irmão. Ali existe actualmente uma Casa de Oração. Nela e noutras casas de oração nessa noite tiveram lugar cultos de evangelização. O rabiscador destas linhas permaneceu em Valezim, onde a sala estava superlotada e duas preciosas altas aceitaram o Senhor Jesus. Uma delas, parente do irmão Plácido, nascera havia bastantes anos nesta casa e temos razão para dizer que nasceu pela segunda vez, no mesmo lugar. Que estas duas pessoas possam tomar como exemplo para as suas vidas, a boa conduta cristã do irmão Plácido.
O irmão Plácido, juntamente com outros pioneiros assentou boas bases e directrizes na obra a que se abnegadamente se dedicou, e que ainda hoje são seguidas por outros pioneiros.
Certamente que este dia deixou lembranças indeléveis em cada presente, que sem dúvida sentir maior desejo de ganhar almas perdidas e de imitar a fé do nosso irmão. T. S.»
JSH participou dessa cerimónia de recordação.
II
Mais tarde, em Maio de 2012, o Director da revista Novas de Alegria dedicou a sua rubrica Abertura a lembrar o centenário de TS: Este mês, em que o missionário Tage Stählberg, se fosse vivo, completaria cem anos de idade, prestar-se-á uma justa homenagem póstuma a esse dedicado e valoroso servo de Deus. Jarl Tage H. Stählberg nasceu a 14 de Maio de 1902, em Mönsterás, na Suécia. Acompanhado da sua esposa, a missionária Ingrid, chega a Portugal em 1938, a fim de substituir o também missionário sueco Erik Samuel Nyström na direcção da obra do Senhor no nosso país, em especial na região de Lisboa.O autor destas conheceu esse insigne dirigente evangélico desde a escola dominical, quando criança, sobretudo na então congregação de Sacavém. Mais tarde, jovem evangelista, é convidado pelo missionário para professor no Instituto Bíblico (na altura situado em Lisboa, na Av. Almirante Reis) e na Escola Bíblica efectuada no Outono de cada ano, também na capital.
Doutrinador emérito, consagrado dirigente espiritual, teólogo, Stählberg acreditava nos jovens, apostava neles... Era de facto um excelente líder, um missionário de visão. Quando faleceu (6/10/1980) escrevi em Editorial, na nossa revista de Novembro de 1980, o artigo que a seguir se transcreve.
- O pastor Tage Stählberg, que durante 40 anos trabalhou dedicada e incansavelmente no nosso país em prol da conversão de milhares de portugueses para Cristo, acaba de falecer na Suécia, sua terra natal, com a idade de 78 anos.
Homem honesto, probo, sincero, humilde, inteligente e culto; conhecido professor da Bíblia e devotado pastor; jornalista e escritor aprecia do; eficiente organizador e administrador do trabalho evangélico, Tage Stählberg - coadjuvado pela esposa Ingrid,que sempre esteve ao seu lado nos bons e maus momentos – foi o instrumento divino, em terra lusa, que maior impulso deu à Obra de Deus.
Muito devem as Assembleias de Deus em Portugal ao pastor Stählberg no que concerne à unidade espiritual que desfrutamos, à solidez do ensino bíblico ministrado, ao crescimento harmónico da Obra de Deus, à preparação de pastores e evangelistas, à actividade missionária, à assistência social, ao trabalho radiofónico, etc.Sem sombra de dúvida tombou um homem de Deus, um « príncipe e um grande», mas a Obra do Senhor continuará a desenvolver-se e a Crescer até a o glorioso dia do advento de Jesus Cristo.
Que todos nós, a labutarmos na Seara do Mestre, possamos em tudo seguir o seu exemplo de constante fidelidade à Palavra de Deus, de acrisolado amor a Cristo, de generosa devoção à comunidade evangélica, de lealdade aos seus companheiros de luta e de autêntico testemunho cristão ante o mundo.
Foram estas - repito - as palavras que escrevi há 22 anos nas páginas de Novas de Alegria.
Quando o saudoso pastor José Oliveira Pessoa foi à Suécia visitar Stählberg, um mês antes da sua morte, ouviu dos lábios do velho lutador o seguinte: “Sabeis que é muito difícil viver aqui [na Suécia], e ter ao mesmo tempo o coração em Portugal!” Na realidade o coração do irmão Tage sempre esteve neste pequeno país banhado pelo Atlântico.»
No mês de Agosto desse ano de 2002 a mesma revista publicou «Portugueses homenageiam missionários na Suécia» exactamente recordando que se fosse vivo teria feito 100 anos.
Nessa altura, JSH há mais de 20 anos que terminara o seu percurso terreal.
*
Para nós, JSH, pelo seu trabalho e dedicação, está entre os mais relevantes dirigentes pentecostais portugueses, a quem se devia uma justa recordação por altura do centenário do seu nascimento.
Que tenhamos lido, ouvido ou visto, nem sequer a revista de que foi um dos seus grandes obreiros desde 1940 até à sua morte em 1979, dedicou uma palavra a assinalar a efeméride! Puro esquecimento? Só pode ter sido...
Não é que a memória de JSH não tenha sido recordada e assinalada noutras ocasiões, há muitos anos. Foi-o por duas vezes, uma delas com grande impacto a propósito do descerramento duma placa com o seu nome, que passou a ser o do Campo Bíblico de que foi criador e seu mentor enquanto viveu. Mas até essa memória está em vias de desaparecer...
Se o meu trabalho servir para colmatar, em parte, essa lacuna - a de dar expressão à passagem do centenário do seu nascimento, que bem podia ter sido lembrado, com relativo destaque - então também nos sentimos realizados. É sempre muito gratificante tirar da bruma do esquecimento quem, durante 40 anos da sua vida, foi tão relevante para uma obra que exigiu «sangue, suor e lágrimas», uma obra de que, hoje, muitos milhares de portugueses são beneficiários quer no sentido espiritual e moral, quer no sentido mais prosaico da satisfação das necessidades do dia-a-dia.
PS: Admito que nem todos os leitores «contextualizem» estas «histórias de centenários». Elas adquirem (mais) importância se lidas a propósito do meu livro João Sequeira Hipólito. Pastor pentecostal fundamentalista que procurava activamente a santificação.
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