terça-feira, 27 de janeiro de 2015

In memoriam de Manuel de Brito

IN MEMORIAM DE MANUEL DE BRITO
Nada de novo ao cimo da Terra: Morreu mais um homem bom! Não o é porque o disseram, hoje, os oradores diante do féretro onde estava o seu corpo inerte, apagado, sem alma... Era-o efectivamente por causa da vida que viveu, dos passos que deu, das pessoas que amou, ajudou, acarinhou, apoiou, liderou, empregou...Era-o para as pessoas por causa do que Deus era para si: amor! Não estou a falar dum homem sem defeitos, sem mancha que não tenha lavado, sem momentos evitáveis, criticáveis... Desses não falo porque não existem; pelo menos não conheci quem, sendo da mesma massa que eu, não tenha, aqui ou ali, por isto ou por aquilo ficado de mal consigo (principalmente) e com os outros. Estou a falar dum homem que amava!
Amava a família, amava os amigos, amava os inimigos, amava todos com que se cruzava. Amava a vida assim como amava Deus! Eu sei disso por experiência própria, por ter sido beneficiário dessa forma de ser, de estar, de relacionar, de viver. E sei-o desde uma idade em que o que é significativo na vida (bom e mau...) fica registado na alma como marca na pele de boi de raça feita a fogo; sei-o por causa de coisas pequenas, gestos de ouro, servidos em salvas de prata, palavras oportunas de encorajamento e incentivo. Sei-o de tantas e tantas maneiras, umas directas, connosco, outras nem tanto: foram serviço a outro, abraço amigo, mão entendida que depois nos favoreceu também. E, especialmente, sei-o porque vai perdurar na minha memória o valor intrínseco desse que amava a vida assim como amava Deus não por causa da capacidade que tenho para recordar mas porque o testemunho dado constitui-se de «bens imperecíveis», que ficarão para lá de mim...
E escrevo isto aqui, entre nós, amigos, que «viajamos» no Machimbombo da Mutamba para o Bairro Popular e também no sentido inverso, porque ele também amou Angola e as suas gentes! Deu-lhes a sua juventude, a sua idade adulta, o seu trabalho, o seu empreendedorismo, a sua fé, a sua solidariedade... Ter-lhe-ia dado a vida na idade mais madura, sénior, o resto dos seus dias se os tempos não tivessem sido «tão padrastos» a ponto de escusarem tanta experiência e amor que podiam ter feito a diferença no devir imediato à independência da nação. Dos tempos difíceis, que se iniciaram no final da década de 40, até às convulsões do início dos anos 80, foram mais de trinta anos de labor para fazer progredir a terra de Angola.
Vão-se desta vida libertando os que nos precederam nesta relação de amor à terra em que ainda temos raízes de amor, à Angola dos nossos ideais juvenis.
Manuel de Brito está agora no Céu, entoando cânticos de adoração. Mas, na terra, aqui no meu burgo, no meu canto, na minha memória, na minha alma, soa e vai continuar a soar o som da «orquestra» composta por todos «os instrumentos» dum homem bom!

José Manuel Martins

PS: Texto publicado em Sanzalangola.

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