De facto, os pobres, aqueles a quem a fome tolheu a voz não
têm acesso a «Comissões Parlamentares» ou a outros areópagos para gritar,
diante duma parafernália de meios difusores da mensagem: «Não nos deixem
morrer»! São pobres, têm fome, não têm voz, quando muito podem chegar,
silenciosos, à porta de quem, caridosamente, lhes oferece a dita «sopa...dos
pobres» (Oh! Que bênção é essa gente caridosa que sabe que «os pobres estarão
sempre com eles»! Mesmo a sério: são esses, tantas vezes, a única porta que se abre para
salvar o pobre de morrer e onde ele nem precisa de usar a voz que já não
tem...). As minorias organizadas, com poder (económico, social e político...),
podem chegar sempre onde querem e ampliar a sua voz, a sua reivindicação,
satisfazer a sua necessidade específica, submetendo a maioria, se necessário
for, com a força deste argumento: «Não nos deixem morrer!»
Viver é um privilégio. Viver bem é um privilégio ainda
maior. Viver e não ter doenças é o ideal de todos. Morrer... Ninguém quer! Mas
o que todos deveriam querer vai para além dos egoísmos individuais, de grupo,
de classe, de nações, de povos, de Estados... Todos deveriam querer que, antes
de «conquistar a Lua», antes de encontrar a solução para derrotar o cancro ou
impedir que alguém morra de hepatite C, especialmente contraída por causa de
extravagâncias ou devaneios, por exemplo, não morresse um único ser humano por
não ter que comer!
A minha questão é esta: É legítimo socorrer, deitando mãos a
recursos colectivos avultadíssimos, uma pessoa, um grupo, para que viva mais
tempo ou morra de velhice, enquanto morrem pessoas, milhões de pessoas,
crianças, especialmente, porque não têm que comer? O drama é que somos capazes
de pedir tudo para «nos salvar a vida» ou para «morrer mais tarde» ou para «ter
mais qualidade de vida» e esquecemos os milhões que estão a morrer de fome! É
tudo «micro», está centrado no «umbigo» de cada um, está tudo disponível para
«quem tem voz» e pode aceder aos areópagos onde ela se amplia, num ruído
ensurdecedor que só se extingue com a satisfação do interesse respectivo (Ah!
As virtudes das sociedades democráticas que vivem das «demagogias de ocasião»
para perpectuar o poder... Não se pode deixar morrer nem que seja uma andorinha
sob pena de não haver mais Primavera...)
*
Uns de nós têm mais capacidade para fazer o papel de Deus!
São deuses: podem determinar quem deve ou não morrer. São eles que estabelecem
a prioridade: vamos salvar 1, com rios de dinheiro, vamos deixar morrer 1
milhão, não lhes proporcionando o que comer!
*
Essa questão de estabelecer prioridades é muito séria. Não
pode ficar à mercê da pressão de que tem poder, acesso fácil aos decisores ou
meios de pressão para os determinar a agir no interesse de quem pressiona. Tem
que haver ética e sentido do interesse colectivo mais relevante quando se trata
de dar destino ao que é de todos. Já agora, o filme «O Jogo da imitação» pode
ser um bom pretexto para reflectir sobre o que significa almejar a Primavera,
mesmo que se deixe morrer uma andorinha...

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