domingo, 8 de fevereiro de 2015

Não nos deixem morrer!

De facto, os pobres, aqueles a quem a fome tolheu a voz não têm acesso a «Comissões Parlamentares» ou a outros areópagos para gritar, diante duma parafernália de meios difusores da mensagem: «Não nos deixem morrer»! São pobres, têm fome, não têm voz, quando muito podem chegar, silenciosos, à porta de quem, caridosamente, lhes oferece a dita «sopa...dos pobres» (Oh! Que bênção é essa gente caridosa que sabe que «os pobres estarão sempre com eles»! Mesmo a sério: são esses, tantas vezes, a única porta que se abre para salvar o pobre de morrer e onde ele nem precisa de usar a voz que já não tem...). As minorias organizadas, com poder (económico, social e político...), podem chegar sempre onde querem e ampliar a sua voz, a sua reivindicação, satisfazer a sua necessidade específica, submetendo a maioria, se necessário for, com a força deste argumento: «Não nos deixem morrer!»
Viver é um privilégio. Viver bem é um privilégio ainda maior. Viver e não ter doenças é o ideal de todos. Morrer... Ninguém quer! Mas o que todos deveriam querer vai para além dos egoísmos individuais, de grupo, de classe, de nações, de povos, de Estados... Todos deveriam querer que, antes de «conquistar a Lua», antes de encontrar a solução para derrotar o cancro ou impedir que alguém morra de hepatite C, especialmente contraída por causa de extravagâncias ou devaneios, por exemplo, não morresse um único ser humano por não ter que comer!
A minha questão é esta: É legítimo socorrer, deitando mãos a recursos colectivos avultadíssimos, uma pessoa, um grupo, para que viva mais tempo ou morra de velhice, enquanto morrem pessoas, milhões de pessoas, crianças, especialmente, porque não têm que comer? O drama é que somos capazes de pedir tudo para «nos salvar a vida» ou para «morrer mais tarde» ou para «ter mais qualidade de vida» e esquecemos os milhões que estão a morrer de fome! É tudo «micro», está centrado no «umbigo» de cada um, está tudo disponível para «quem tem voz» e pode aceder aos areópagos onde ela se amplia, num ruído ensurdecedor que só se extingue com a satisfação do interesse respectivo (Ah! As virtudes das sociedades democráticas que vivem das «demagogias de ocasião» para perpectuar o poder... Não se pode deixar morrer nem que seja uma andorinha sob pena de não haver mais Primavera...)
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Uns de nós têm mais capacidade para fazer o papel de Deus! São deuses: podem determinar quem deve ou não morrer. São eles que estabelecem a prioridade: vamos salvar 1, com rios de dinheiro, vamos deixar morrer 1 milhão, não lhes proporcionando o que comer!
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Essa questão de estabelecer prioridades é muito séria. Não pode ficar à mercê da pressão de que tem poder, acesso fácil aos decisores ou meios de pressão para os determinar a agir no interesse de quem pressiona. Tem que haver ética e sentido do interesse colectivo mais relevante quando se trata de dar destino ao que é de todos. Já agora, o filme «O Jogo da imitação» pode ser um bom pretexto para reflectir sobre o que significa almejar a Primavera, mesmo que se deixe morrer uma andorinha...


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