sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Angola, Justiça e Paz..

Meus queridos amigos, apesar de na vida haver tempo para tudo, não há tempo para recuperar o que a preguiça não deixou viver! Qualquer coisa parecida com o dito «não se pode tomar banho duas vezes na mesma água corrente»...
As vezes que viemos aqui, ficamos na paragem e vimos o machimbombo partir, sem dizer nada, um olá sequer, pronto, já não podemos recuperar. Mas podemos compensar! Vamos lá, toca a sair da «letargia» ou do modo «já não tenho nada para dizer».
Angola é o nosso forte! É a nossa matriz, parte da nossa alma... O seu povo é nosso irmão, ainda sentimos emoções quando ele sofre ou é feliz...
Nos primeiros dias do ano corrente li Angola, Justiça e Paz nas intervenções da Igreja Católica 1989-2002, tese de doutoramento em Ciência Política do padre espiritano Tony Neves, por sinal nascido, como eu, em Gondomar (mas eu não sabia, não foi por causa disso que o livro me chegou às mãos: foi por obra e graça do meu filho Pedro que sabe que tudo que se refere a Angola me «inquieta» e mo ofereceu pelo Natal). Como tese de doutoramento (mesmo nessa «coisa» que se chama «ciência política», pote onde cabe tudo...) ficou aquém das minhas expectativas. Diria mesmo: não sabia ser adequado fazer um doutoramento com uma tese assim em Ciência Política... Mas recordei, reflecti, amadureci, revi, aprendi, etc. Fez-me muito bem a leitura e o doutor Tony Neves merece todos os encómios, apesar da «insuficiência» para ser tese em Ciência Política, ou então sou eu a desfocar o que seja a dita cuja...
Mas a descrição do sofrimento ocasionado pela guerra, a matriz cristã da acção missionária, a esperança que alimentava o povo sofrido, a dedicação de homens e mulheres de várias regiões do Mundo, em particular mulheres e homens portugueses, alguns dos quais já eram dos angolanos na alma, no coração, no sangue, no viver, antes da independência e atravessaram os «desertos» para servir, levaram-me «às lágrimas»...
Vi a morte, destruição, fome, medo, angústia, incerteza... Vi o mundo no chão, de rastos, a humanidade sem direitos, sem defesa... Vi as lavras vazias, minadas, as aldeias abandonadas, as cacimbas entulhadas, os animais escondidos... Vi o «inferno» que o ribombar das armas iluminava...
Muito do que vi, vi nas entrelinhas, no que não estava, em caracteres, nos documentos, nos relatos, nas análises, nas homilias, nas cartas pastorais, na propaganda a favor deste e contra aquele... Vi pelas estradas esburacadas, enlameadas, intransitáveis... Vi especialmente no que imaginei estar a suceder com aqueles nossos irmãos que se embrenharam nas matas para não morrerem e morreram à fome, à sede, à míngua de tudo...
A obra fala do trabalho da Igreja Católica, do seu empenho em pôr termo à guerra. Não fala muito (tratando-se duma tese com base na intervenção da Igreja Católica não feria sentido nenhuma «deriva» para falar da acção doutras igrejas, mas o Doutor Tony Neves, quando a exposição o exigiu, fê-lo...) doutras acções meritórias no terreno, pacíficas, de serviço, de amor...
Ressuscitou-se-me o interesse por aquelas missionárias e missionários que conheci, nos anos 70, que sustentavam a escola, o hospital, a oficina, o estábulo, o campo, ensinando, curando, tratando, formando mulheres e homens do povo... Como aquele rapaz que eu conheci, quando era eu rapaz também, e «imortalizei» no meu entre laços d'ontem, bailundo, formado na missão... Essa Igreja militante pelo bem-estar desses nossos irmãos foi pulverizada pela guerra, individualmente muitos subiram ao Céu como mártires por causa do amor a Deus manifestado ao seu semelhante…
Se voltasse a Angola (e o tempo é tão curto já para que isso seja verosímil...) o que gostava era de ir ao encontro desses que sobreviveram, pedindo-lhe que alimentassem o meu amor por essa «nossa» Angola que tem futuro se viver em...Paz!
Se vos «inquietei», não se dediquem às leituras que tenham que ver com esta «ciência política», muito menos que tenham relação com o martírio da «nossa» gente...
Sejam felizes e venham apanhar o próximo machimbombo. Faremos o percurso com mais ânimo...
Um abraço.

José Manuel Martins
PS: Este texto foi escrito em jeito de «abraço» aos amigos que costumam recordar comigo as coisas de Angola da nossa meninice e juventude. «Arquivo-o» aqui para «abraçar» os meus amigos doutras recordações, igualmente importantes!

Sem comentários:

Enviar um comentário