segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Quem é o ladrão?

Vi a reportagem «Filha Roubada» emitida pela RTP1. Por dever de ofício, uma vez que não costumo dar especial atenção a esse tipo de trabalhos jornalísticos, em particular quando antevejo a mediatização da vida particular de alguém com base em decisões judiciais: os jornalistas, em regra, sabem muito pouco sobre regras de aplicação do direito e tendem a interpretar os factos à luz do que o julgador desconhece e que, portanto, não interfere na decisão. Alguém me disse: «Se tiver oportunidade, agradeço que veja hoje a reportagem da RTP1 sobre o Lar de Betânia, depois do Telejornal».

«Boa, uma reportagem sobre o Lar de Betânia, no horário nobre da RTP…» – pensei com os meus botões. Mentalmente, no entanto, fiquei desconfiado, dando comigo a pensar nos antecedentes – em regra os meios de comunicação social não «retratam» coisas boas, muito menos quando elas acontecem por acção de homens e mulheres cristãos evangélicos empenhados em tarefas nobres de cuidar dos outros, das crianças em particular, as que, sendo desvalidas, precisam de colo, de pão, de cama, de valores, de projecto de vida… Confesso que me sentei no sofá, à hora marcada, desconfiado. Reportar o Lar de Betânia a essa hora, num canal generalista, visto por centenas de milhar de portugueses (cá e no resto do Mundo…) parecia bom demais, um autêntico milagre… A inicial sensação de satisfação desvaneceu-se logo que li o título da reportagem e ouvi as primeiras palavras da progenitora da criança em causa, protagonista assumida, chorosa como convém, alardeando bondade, capacidade afectiva, tudo para ser a melhor mãe do Mundo, incapaz de errar e de admitir…o erro… Tudo, tudo culpa dos outros (todos eles ausentes, como o juiz, o pai, os representantes do Lar de Betânia…), em cujas costas largas tudo dependurava… Era gato escondido com rabo de fora, como soe dizer-se quando a montanha dá à luz um rato. Logo me apercebi que o Lar de Betânia estava ali para ser o «bombo da festa», além do Juiz, claro, um «monstro» desumano, incapaz de decidir a vida dos outros, duma petiza felicíssima, antes de ser institucionalizada, a quem os adultos, maxime a mãe, imputavam querer para dizer de quem gosta e de quem não gosta, definitivamente, aos quatro aninhos de idade, aos cinco, aos seis e… até aos sete…

Do Lar de Betânia, numa reportagem de 30 minutos, só se fala quando a reportagem está no apogeu de verborreia e se advinha a crítica preconceituosa, estavam já estafados cerca de 20 minutos de jornalismo indecente. Muito mau, muito mau mesmo, mesmo antes de introduzir o tema da religião, dos tratos desadequados (maus…) (até um vizinho ouvia a menor chorar, pela manhã, sem se saber quando: à entrada no Lar, passados dias, passadas semanas, passados meses? Não interessa, o jornalista não pergunta, já tinha o que queria: a criança chorava!), da insegurança, da falta de corpo clínico próprio, das técnicas que não queriam brinquedos nem fotografias… Em crescendo, da boca desse jornalista e da câmara que apontava a quem queria ser visto e a quem tinha o direito de reserva à imagem, foram sendo vociferadas frases de mesquinha avaliação dos factos e ultrajadas a honra e bom nome das Instituições visadas (não lhe bastava o Lar de Betânia, a Magistratura… tinha que mexer com a AEP com A CADP….), com o objectivo de «engalanar» o drama, ao qual, felizmente, a menor fora arrancada, corajosamente arrancada por um decisão que só pecou por ter esperado, até ao limite do tolerável, que uma mãe abrisse mão do seu direito de «ter a filha só para si», à custa de tudo, inclusive da saúde da filha, sem ter consciência disso, admitimos sem reservas, como demonstradamente consta dos autos…

O jornalista, como resulta da reportagem, estava convencido que tinha encontrado nas «debilidades» do Lar a razão forte para concluir a reportagem em alta, emocionalmente falando, não quanto aos factos, porque quanto a eles claudicou assentado na sua sobranceria…

Então, para o jornalista, o Lar de Betânia é tudo menos uma Instituição Particular de Solidariedade Social, tão digna como qualquer outra, das centenas que existem e laboram no Alentejo, que tem Acordo de Cooperação com a Segurança Social e é supervisionada pelas autoridades públicas competentes…

Então, para o jornalista, o Lar de Betânia não tem órgãos sociais (Assembleia Geral, Direcção, Conselho Fiscal) e por isso não tem necessidade de falar com quem o dirige, arrogando-se o direito de falar nas costas dos visados…traiçoeiramente…

Então, para o jornalista, o Juiz imaturo andava de amores com o Lar de Betânia (se não é da mesma religião, parece, pois nem perguntou a ninguém acerca do Lar quando para lá mandou a criança… Tinha-a fisgada, o Juiz, e queria que a criança se virasse para o pai, através da religião… é o que transparece do que disse o jornalista e, muito mais, do que não disse e deixou claramente intuído…) …

Então, para o jornalista, os acórdãos do Venerando Tribunal de Évora, proferidos em Novembro e Dezembro de 2009, não contavam nada, apesar de terem confirmado na íntegra, sem tirar nem pôr, a decisão do imaturo juiz, inclusive a confiança da menor ao Lar de Betânia e o plano terapêutico de recuperação gizado pelos técnicos…

Então, para o jornalista, não valia nada a reapreciação da situação da menor, após um mês de permanência no Lar de Betânia, efectuada com base nesse plano de exigência preestabelecida, elaborado pelos técnicos que melhor conheciam a situação da menor, depois da qual foi decidido manter a medida de confiança provisória (…) ao Lar de Betânia nos precisos termos da decisão inicial…

Então, para o jornalista, não contou o facto do Tribunal (e já não saída da pena do imaturo juiz…) ter autorizado, pelo Natal e Ano Novo, a saída da criança do Lar de Betânia para estar com a mãe e com o pai, embora condicionada à avaliação técnica do estado psicológico e emocional da menor e da forma como decorrerem as visitas nos dias anteriores, de modo a evitar que as mesmas ponham em causa os progressos já obtidos ou a estabilidade da menor (Custava-lhe admitir que os técnicos do Lar de Betânia tinham realizado um trabalho sério, exemplar, com resultados? Claro, afinal a reportagem era para dizer mal do juiz e do… Lar de Betânia…) …

Então, para o jornalista….

Falta dizer, sem esgotar as razões da falência de tal trabalho dito jornalístico, que a reportagem não dignifica o jornalismo, serve-se de factos verdadeiros que não relevam para o assunto da mesma (explicará o jornalista a que luz o facto de dizer que o Lar de Betânia é da AEP, da CADP, quando não é, que o Presidente da Direcção da CADP é Pastor, mas é-o porque deixou de ser Enfermeiro? …), utiliza imagens que não retratam a verdade (explicará o jornalista a que luz o facto de mostrar uma carrinha do Lar, à porta da Assembleia de Deus, com a porta aberta, alegando insegurança, quando, como ele sabe, a porta só abre por fora e só o adulto que as acompanhava o pode fazer… em segurança?).

A reportagem é iníqua pelo que omite. Se nela se queria falar do Lar de Betânia deveria dizer-se que a criança estava lá por decisão legítima do Tribunal e que o Lar de Betânia cumpriu, como sempre procurou cumprir ao longo da sua história de mais de quatro décadas; deveria dizer quais são os fins sociais do Lar e as obrigações a que está sujeito por via da Lei, dos Estatutos, dos Regulamentos e dos Acordos de Cooperação…

A reportagem é violadora dos direitos das crianças por não ter respeitado o direito à sua imagem, em nome dum sensacionalismo bacoco, em busca de audiência emocional…

A reportagem viola os direitos de cidadania de muitos portugueses porque, servindo um interesse particular (objectivamente, o da mãe…) foi feita à custa do que pagam em impostos para manter o Serviço Público de Televisão, um sistema de Justiça independente e, ainda, da ajuda financeira em donativos, ao longo do tempo, solidariamente com o Lar de Betânia e com as crianças desprotegidas, muitos deram…

Afinal, quem roubou quem!?

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