quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

«Filha Roubada»: O que move a RTP?

No Telejornal das 20 horas de 2 de Fevereiro a RTP voltou ao tema da «Filha Roubada» a propósito da conferência de imprensa dada pela Direcção do Lar de Betânia, a quem a criança visada na reportagem está provisoriamente confiada, por decisão do Tribunal, sindicada pela mãe no Tribunal da Relação de Évora.
Nenhum dos aspectos importantes das declarações dos representantes da Instituição mereceu atenção por parte da Direcção de Informação da RTP: apenas retiveram das declarações prestadas o que é óbvio para todos, a saber, que a criança está no Lar por decisão judicial, que o Tribunal pode a cada momento para alterar a decisão e que o Lar é uma IPSS sujeita a supervisão, como qualquer outra instituição da mesma natureza, pelas entidades administrativas competentes, e que não é um Hospital, uma clínica, uma instituição que presta cuidados de saúde (por isso só tem corpo técnico e não «corpo clínico»!).
Mas o destaque destes aspectos, a que a RTP resumiu a conferência de imprensa, não é inocente. A RTP está convicta que o fundamento da decisão do Tribunal é o «síndrome de alienação parental» e que essa doença cura-se com intervenção dum corpo clínico, que o Lar não tem, daí a enormidade da institucionalização!
Mais.
A RTP não admite que o Lar de Betânia, através do seu corpo técnico, possa interferir na fixação do regime de visitas dos pais, melhor, da mãe, cujo partido tomou. Apesar disso – louva-se a condescendência! -, lá admitiu publicar as declarações que põem a questão no seu devido lugar: a institucionalização foi ordenada judicialmente e é ao Tribunal que cabe decidir o que importa em defesa dos superiores interesses da menor! A intervenção do Lar de Betânia e do seu corpo técnico é instrumental em vista desse desígnio.
Estou convicto que os equívocos da RTP se manterão por muito tempo, mesmo que eles representem, objectivamente, um mal para o Lar de Betânia, cuja história de serviço à comunidade não respeita. Aliás, o interesse jornalístico nos passos da criança, quando tem que se deslocar na execução do plano estabelecido, mantém-se, assumindo laivos de perturbação. Continuará a esgrimir o argumento de que o Lar de Betânia impede que a mãe (com o pai, aparentemente, não se interessa muito…) esteja o tempo que quer com a filha, nas condições estabelecidas por ela, com fundamento no inalienável «direito de exercício da parentalidade residual», que a mãe nunca deixou nem deixará de ter…, apesar de saber que a mãe (e o pai, dizemos nós!) pode exercer todos os direitos… junto do Tribunal que tomou a decisão provisória e que a todo o momento pode alterar (reiteramos…). Continuará a esgrimir o argumento de que o Lar de Betânia tem vinculação religiosa, o que só por si é anátema, e que ensina a religião recebendo para tanto dinheiros públicos, alienando o facto de uma boa parte do financiamento do Lar de Betânia provir da generosidade dos associados e não associados.
Não sabe a RTP que o Lar de Betânia é uma instituição particular de solidariedade social de inspiração cristã-evangélica (não uma instituição religiosa, uma extensão eclesial…), como há centenas por esse País fora de inspiração cristã-católica romana, que está vocacionada para proteger e acolher crianças e jovens de ambos os sexos em situação de risco, que pode cumprir esse seu desígnio social gratuitamente e que está aberta a celebrar acordos, para além das entidades oficiais, com outras instituições na mesma natureza que, por razões sociais e religiosas, queiram apoiar a protecção de crianças e jovens?
Sabe, mas prefere imputar ao Lar os «males» duma decisão judicial, que a mãe atacou sem êxito, com a qual não «concorda».
Sabe, mas prefere desvalorizar a acção do Lar e do seu corpo técnico, que estão ao serviço da comunidade e das crianças que lhe são confiadas.
O que move, afinal, a RTP: a prossecução do serviço público que lhe está confiado?

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