terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pão e palavra

Hoje li uma crítica à atitude de um coleccionador por ter «juntado muitas coisas»! O homem não fez mais nada durante cerca de oitenta anos do que adquirir estátuas egípcias, tapeçarias flamengas e outras coisas raras. Com isso puderam os outros, os que lhe sucederam, fazer uma «casa museu», frequentada por milhares de pessoas interessadas nesse espólio. A crítica era: mais vale ajuntar tesouros no céu do que coisas aqui, durante a vida!

Percebi a intenção dos autores do texto, mas o exemplo é infeliz. Podemos ter atitudes culturais, viver inclusive delas, acumular relíquias, obras de arte, papéis, livros, outras coisas que, para outros, deviam ser despejadas directamente na lixeira… A cultura não está de costas viradas para a «coisa espiritual». Mas para muitos cristãos ter tesouros no céu significa não ter nada de nosso aqui! Fundamentalismo, aliás totalmente incompatível com a atitude humana. Queremos um bocado de terra para lavrar, semear, plantar, erguer uma casa! Queremos dinheiro, ou outros meios de troca, para aceder ao que nos faz falta! Queremos, afinal, ter aquilo que permite sobreviver física e espiritualmente (afinal, nem só do pão vive o homem…).

As coisas não atrapalham se forem instrumentais (tê-las permite, além do mais, dividir com que não tem…); os bens materiais não são precisos no céu, mas bem podem transformar-se em tesouros imperecíveis lá (onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e os ladrão não minam nem roubam…).

É tudo uma questão de atitude! E a atitude do coleccionador é boa se quiser proporcionar aos outros (além do deleite pessoal…) o acesso a bens culturais que doutra forma não teriam…

Sem comentários:

Enviar um comentário