Deslizavam os dias como se a vida rebolasse numa ribanceira, feita de curvas e contracurvas, impedindo a visão do precipício; mas que, depois da última, estava lá, estava...
A procura do pão, do gás, dos bens essenciais – os dispensáveis, mas habituais no passado recente, já não faziam parte do cabaz diário, dando, quando muito, estímulo aos deslizes oníricos... – correspondiam às curvas do caminho inclinado, que pressentia irreversível. Faltando aquilo, o caminho era sempre a descer, não tardaria que ecoasse o estrondo da desilusão em consequência da queda no medonho desconhecido do fim da linha.
O dilema era esse: deslizar para o precipício ou interromper a queda, mesmo sem saber se o desvio da rota implicava novo desconhecido.
Foi por um novo desconhecido, também ele acessível por rotas curvilíneas e sem horizonte traçado – desconhecido é desconhecido e não vale de nada tentar adivinhá-lo... – que optou; talvez lá adiante, noutra curva, desfeita para a direita, não faltasse o pão, embora comido ao frio das noites sem tecto de abrigo, com os holofotes de intensa luz a revelar que pão sem destino não vitamina a esperança; talvez, já não longe da adivinhada última curva, no fundo, no precipício, o estrondo da queda não amedrontasse a sofrida alma de quem trocara um desconhecido de rejeição por um de ilusória protecção.
Num ápice, cuja duração se prolongou por semanas a fio, ao som do replicar constante de espingardas, juntou o que pôde, numa selecção em que primeiro ficaram as almas, depois as coisas, refreou o medo, atiçou a chama da paixão, renovou os votos, e disfarçou os temores da decisão. Naquele espaço apertado, dois lados diferentes, um para almas em desassossego, outro para as coisas retiradas do contexto em que faziam mais sentido e onde foram úteis ao sossego interrompido, reprimiram-se os impulsos de ficar, distenderam-se os de fugir. Enevoavam-lhe o cérebro os relatos do medonho fim da linha de muitos iguais cujo espaço apertado não lhes permitia inverter o plano inclinado por ausência de estímulo vital, desaparecido antes da compressão dos corpos em buracos térreos sem dignidade, ou abandonados sob um luminoso azul celeste ou um negro estrelado que confunde o vivo e o morto.
Os estrondos assobiados, audíveis até aos confins atingidos pelos focos artificiais de luz intensa, eram a certeza de que a rota agora, não simbolicamente, era ascendente, com um intermédio de tempo previsível, até voltar a inclinar-se, agora para assentar num tempo incerto, largando as almas e as coisas para percorrerem, por sua conta, mais por conta daquelas do que destas, a via do desconhecido...
Melhor? Sabe-se lá... Serão necessários meses, anos, quiçá mais de trinta, aos que ainda estão a caminhar, para, pelo menos, comparar o destino de quem ficou com o de quem abalou...
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Um desconhecido melhor...
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