Passaram-se anos, anos a fio, mas ainda estava fresca a memória da infância dela e da adolescência dele. Lembrava-se ela do nome dele, ele tinha ainda presentes as feições de menina dela...
- Ouvi chamar por.... e associei-te imediatamente ao nome! - disse-lhe, ruborizada, pelo impacto do inesperado reencontro.
- Ah! Mas tu és... (quis dizer o nome, mas não foi capaz) tu és... a filha da dona Hermínia! Olha, como te fizeste mulher!
- Pois... – assentiu.
E por breves instantes ali ficaram a recordar, a recordar...
No Bairro de casas alinhadas, popular, estradas rectas, poeirentas ou barrentas – se fazia sol ou chovia... – brincava ela os seus inocentes dias da infância. Todos os meninos eram importantes para levar a cabo a lúdica e infantil imaginação dos seus entreténs de menina filha única. Ali, casa com casa, gémeas siamesas, tão parecidas que se distinguiam apenas pelo número de polícia (aliás, nem pelo número, só pela letra que uma delas levava a mais: x, x-a...) passaram seus dias. Às vezes, ela de bicicleta de «roda curta» barrava-lhe a passagem da motorizada NSU, ali num encontro de porta com porta. A menina, pequenina, redondinha, a filha da dona Hermínia... Era vê-la, mais crescidinha, sorriso aberto, interessada, por simples curiosidade ingénua, nas razões porque ele se levantava tão cedo, amiúde, e estava para ali a ler, porta aberta para franquear a entrada da brisa matinal nos dias de canícula nocturna, quando o pai tinha o motor do camião em funcionamento e ela acordara para se despedir por oito dias, tempo que levava a viagem ida e volta, lá para os confins das terras que ela ainda não conhecia...
Criança, que agora estabelecia a relação entre as muitas madrugadas em que se despedia do pai, vendo-o desperto e afoito em leituras, e o momento em que ouviu soar o seu nome, em voz estridente de oficial de justiça:
- Dr........
Estavam ambos à mesma porta, duma Vara qualquer, dum tribunal já extinto, desses que alegadamente resolvem problemas de família. Ambos exactamente para isso, à espera da nomeação do meirinho, no afã de ali pôr termo ao que, por moral, é eterno: ela, como explicou, para pôr ponto final ao casamento, que andava há muito entre parênteses; ele, para debitar uns conceitos jurídicos, sobrepostos à factualidade formalmente apurada, numa tentativa última de alcançar a pretensão dum pai diminuído – há muito que não tinha vista do filho, que a mãe levara para não se sabia onde... Um problema de família também.
Ela casara, agora divorciava-se. Tudo tão natural naquele corredor frio, com gente à escuta, à espera de ouvir entoar o seu nome... para resolver um problema de família!
Ele perguntou pela dona Hermínia, a mãe; ela disse que estava bem, o pai idem, e os vizinhos do Bairro, portas antes e depois das deles, em frente, mais adiante, onde moravam também outros meninos e meninas, cujos nomes citava, e que agora estavam cada um nas terras de origem dos progenitores (ou dos avós, até dos bisavós...) ou por ali, à volta da cidade capital da terra de retorno, estavam bem, andavam na Universidade, acabaram os cursos, casaram, foram para o Brasil...
-Olha, dá cumprimentos aos teus pai. Tenho que ir, estão à minha espera... – disse ele, enquanto se tapava de preto, entrando na sala de audiências.
– Eu dou...
Não a viu mais. Até hoje. Nem à dona Hermínia, nem ao pai, o vizinho camionista, que o interrompeu tantas madrugadas quando iniciava a preparação do motor do camião, fazendo tresandar o ar de cheiro a gasóleo, naquela promíscua mas feliz vizinhança...
Divorciara-se, certamente, naquela segunda conferência de cônjuges...
Tão menina...
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Tão menina...
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