Para o contrato não queria ir, na roça, mais para norte.
Ficou por Luanda, arranjou "moradia" no musseque, com outros bailundos. Trabalho apareceu logo, como servente. Estava em construção o "Edifício dos Correios Militares", a Central do SPM, ali junto aos quartéis, e o construtor precisava de mão-de-obra. Ele, acabado de chegar, falava pouco, quase nada... em português! Eu não sabia uma única palavra de umbundo. Também estava a aprender... mas eu era branco, da metrópole, mais jovem do que ele, não podia ser servente...nem aprendiz. Tinha que ser mestre!
Aprendemos juntos porque ainda não tivera tempo de alimentar preconceitos... Depois, ele, bailundo, pacífico, desentendido das coisas da "civilização", só queria fugir ao contrato, amontoar angolares para o alambamento...e não se importava de me dar a provar o almoço que cozinhava na lata preta...
Recordo agora o meu amigo, a quem "dei" a língua portuguesa, meu servente, quando eu era apenas aprendiz...
Agora não lhe recordo todos os traços do rosto, que era largo, bem escuro, barba encravada; agora só recordo que não havia diferenças que nos impedissem de comer o almoço da lata preta, como ele era, onde estava a farinha, quase branca, como eu era!
Se voltou ao Bailundo e pagou o alambamento, não sei; no musseque, tenho a certeza, não ajuntou com parceira – queria-a da terra, virgem, só dele... Eu fui ser mestre para outro lado, ele ficou servente no mesmo sítio, até quando não sei...
Lembro-me da partilha da farinha da lata e do peixe cozinhado (o odor afastou-me de início...), com óleo amarelo, e sinto-me prisioneiro do passado!
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