terça-feira, 3 de novembro de 2009

Doutor, você safou um ladrão!

- Boa tarde, senhor doutor!

- Pode sentar-se… Qual é questão que o traz cá? Falou-me do seu caso o V, amigo dos seus pais… Parece que está metido no imbróglio, não é?

- Pois… – sussurrou o homem, jovem, na casa dos 26 anos, ainda acanhado na presença do advogado. – Contei o caso aos meus pais… foi o V. que me valeu, mas o prazo está a terminar e eu ia mesmo aceitar a decisão…

-Deixe-se de rodeios, homem, e diga lá…

Ele tirou uns papéis do bolso, amarrotados, vendo-se bem que andaram de mão em mão, e entregou-os ao advogado, mantendo os olhos no chão, como se estivesse a fazer algo de que se envergonhasse. O advogado pôs os óculos de ver ao perto, acendeu o candeeiro que tinha sobre a secretária, começou a ler, a ler… e a franzir o sobrolho, assumindo um ar preocupado. Leu a última página e exclamou:

- Então você assume que furtou a máquina fotográfica e agora quer o quê da decisão que o manda para o olho da rua!? Um polícia não deve ser ladrão… Mas diga lá!

O homem, a custo, levantou os olhos e fitou os do advogado, ainda incrédulo com o que acabara de ler. Titubeando, lá foi dizendo que foi o oficial do exército, destacado na Polícia, nomeado instrutor, que o pressionara muito para admitir o furto da máquina fotográfica que um camarada tinha deixado, por esquecimento, na caserna, que assim ficava tudo resolvido, não havia mais investigação, o que era saudável para o ambiente daquele corpo de polícia…. Afinal foi no dia em que ele estava de serviço e entrou sozinho na camarata que o objecto desaparecera… E ele confiou e confessou!

- Você deve gostar muito da polícia e do trabalho que faz… – exclamou o causídico, hilariante. – Andam não sei quantos camaradas seus a dizer a todo o mundo que a vida é dura, ser polícia é um risco, ninguém os reconhece e você está disposto a tudo para preservar o «bom ambiente» …Tem jeito para herói… Mas afinal ficou com a máquina ou não?

O homem voltou a baixar os olhos, ficou pensativo e disse:

-Eu só confessei para que não houvesse desconfianças em relação aos outros camaradas e julgava que o assunto ficava resolvido com uma simples repreensão…

- Você, homem, desculpe que lhe diga, é ingénuo ou faz-se! Olhe, faltam 48 horas para apresentar recurso contencioso do acto administrativo do Comandante Geral da Polícia…

- Safe-me, senhor doutor! – disse o homem agora quase a chorar. – Tenho mulher e filho para sustentar e a casa para pagar ao banco… quem é que me dá trabalho sabendo que me mandaram embora da polícia como ladrão?

- Pois, nisso tem razão, mas você confessou…

Aquelas 48 horas foram muito penosas para o advogado. A questão era: Como safar um ladrão que, ali, diante dele, apenas admitia que confessou o furto, mas não dizia directamente que não o praticara… alguma coisa escondia. Pensou no V., homem sério, que o recomendara, mais por causa dos pais do que por ele.

Arguiu no Supremo Tribunal Administrativo a nulidade do despacho do Comandante Geral da Polícia por razões de ordem formal (afinal, tecnicamente, o despacho padecia do vício de falta de fundamentação da decisão…). O acórdão, passados meses, anulou a decisão e mandou reintegrar o polícia, que ficara suspenso do exercício de funções.

Voltaram a falar, advogado e polícia, que passou a aparecer no escritório daquele fardado a preceito, como se estivesse preparado para mais um dia especial na vida dele… Ficavam pendentes, face à decisão, duas questões: o pagamento dos salários relativos ao tempo da suspensão e como proceder no processo disciplinar, reaberto na sequência da decisão do Tribunal. A ambas o advogado deu sequência, sendo que, por proposta do polícia, os honorários devidos só poderiam ser pagos depois de receber os salários atrasados e após ter pago ao banco e as outras contas, e no inquérito deveria responder que não furtou máquina fotográfica nenhuma (afinal, a única prova de que furtara era a sua própria confissão…).

Por falta de provas, o processo disciplinar foi arquivado, ganhando a polícia um agente sem mancha. Depois de tramitado o processo, recebeu tudo a quanto tinha direito relativo ao período de suspensão (enquanto foi respondendo ao processo disciplinar foi recebendo salários e pagando as contas, menos ao advogado…).

Tudo concluído, desapareceu, nunca mais mostrou a farda nem deu sinal de vida. Também não pagou ao advogado os respectivos honorários, embora tivesse recebido os salários atrasados... Foi o V, uns tempos mais tarde, que lhe disse:

- Doutor, você safou um ladrão!

Sem comentários:

Enviar um comentário