Presumo que, se soubéssemos a duração da nossa vida, teríamos uma outra atitude em relação à acumulação de riqueza e não viveríamos angustiados por não sabermos a que mãos vai ela parar. Sim, não sabemos. Há muita gente doente por causa disso. Se a vida é tão curta e, alguns, em pouco tempo, acumulam tanta riqueza, o melhor é distribuí-la ou, pelo menos, pô-la ao serviço de todos. Na volta, a vida (resumida na riqueza), vai parar às mãos mais estranhas que possamos imaginar. É verdade!
Vou promover a venda dum apartamento (não estou aqui a fazer negócio) que um homem comprou há mais de 40 anos; aliás, o homem vivia numa casa arrendada (renda baixa, congelada por Salazar, numa parte bonita de Lisboa) e comprou não um mas dois apartamentos nos arredores da capital. E arrendou-os. Estava ali o futuro do único filho. Não sabia o limite dos seus dias, mas também não vivia angustiado quanto ao destino dos bens: queria-os para o filho! Mas estava enganado. Arrendou, perdeu. Dali o filho não tirou um cêntimo e também já morreu, solteiro, sem filhos. Guardado está o bocado para quem o há-de comer. No banquete vão participar o Estado (nós todos, através do fisco), o inquilino que quer comprar barato e um estranho (sabem que às vezes um estranho fica com a riqueza acumulada, os resquícios do sopro esgotado, e não foi para isso que trabalhámos?), que até pode ser um parente próximo ou distante, mas estranho (daqueles que aparecem para a repartição do espólio!).
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O mais constrangedor nisto tudo é encontrar um velho amigo, um antigo colega da tropa ou de trabalho, depois de muito tempo de separação, que pergunta, depois do cumprimento efusivo da praxe: «E, então, já tens netos?».
Eles olham, olham, vêem as rugas, as cãs … (como se estivessem defronte do espelho, num exercício de memória) e ficam prisioneiros da sua própria condição de avós e de duas, uma: desfiam o novelo das gracinhas ou das patifarias (depois depende do grupo etário em que enquadram os netos…). E acham que, por bem e por mal, todos da idade deles têm que passar por isso. Ao menos, nominalmente, envelhecem com os netos ao lado… mesmo que eles, quando começam a dar conta do seu destino, nunca apareçam senão em dias certos, para receber a mesada…
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