sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Todo o homem é como um sopro.

Pois é! Escondemos que a vida é muito curta e fazemo-lo de muitas maneiras: encobrimos as cãs, esticamos e bronzeamos a pele, interiorizamos que duraremos para além da nossa sombra… É tão angustiante não sabermos a duração dos nossos dias! Nem sequer podemos sabê-la por estimativa. Essa coisa das médias é muito enganosa! A idade média de vida para os homens portugueses é de… tantos anos! 77, 78, um pouco menos, um pouco mais? A certeza das médias é pouco porque eu conheço uma pessoa que tem 104 anos e continuam a morrer pessoas que ainda não chegaram aos 20…

Presumo que, se soubéssemos a duração da nossa vida, teríamos uma outra atitude em relação à acumulação de riqueza e não viveríamos angustiados por não sabermos a que mãos vai ela parar. Sim, não sabemos. Há muita gente doente por causa disso. Se a vida é tão curta e, alguns, em pouco tempo, acumulam tanta riqueza, o melhor é distribuí-la ou, pelo menos, pô-la ao serviço de todos. Na volta, a vida (resumida na riqueza), vai parar às mãos mais estranhas que possamos imaginar. É verdade!

Vou promover a venda dum apartamento (não estou aqui a fazer negócio) que um homem comprou há mais de 40 anos; aliás, o homem vivia numa casa arrendada (renda baixa, congelada por Salazar, numa parte bonita de Lisboa) e comprou não um mas dois apartamentos nos arredores da capital. E arrendou-os. Estava ali o futuro do único filho. Não sabia o limite dos seus dias, mas também não vivia angustiado quanto ao destino dos bens: queria-os para o filho! Mas estava enganado. Arrendou, perdeu. Dali o filho não tirou um cêntimo e também já morreu, solteiro, sem filhos. Guardado está o bocado para quem o há-de comer. No banquete vão participar o Estado (nós todos, através do fisco), o inquilino que quer comprar barato e um estranho (sabem que às vezes um estranho fica com a riqueza acumulada, os resquícios do sopro esgotado, e não foi para isso que trabalhámos?), que até pode ser um parente próximo ou distante, mas estranho (daqueles que aparecem para a repartição do espólio!).

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São os outros que nos chamam a atenção para o facto da nossa sombra se estar a extinguir. Fica o sol a pique (o peso dos anos sobre a cabeça…) e …pás! E fazem-no, a maior parte das vezes, evocando factos da experiência comum: «O meu neto vai entrar na universidade! Parece que foi ontem que nasceu…». Mas antes disso (já agora, a propósito de netos), noutra fase, quando ainda se julgam no apogeu da vida (mas já são avós), perguntam: «E os netos, quantos são!». Se respondemos: «Não, ainda não temos…» observam: «Mas olhe que já é tempo…». Como se os putativos avós tivessem culpas por estarem a envelhecer… sem netos! Mas o que querem é que envelheçamos com eles. A tendência é para envelhecer com outros velhos, sem netos para ver (ou porque os não têm – não há renovação geracional suficiente – ou porque não querem distribuir-lhes a riqueza (ou porque, pior ainda, não a têm para distribuir…).

O mais constrangedor nisto tudo é encontrar um velho amigo, um antigo colega da tropa ou de trabalho, depois de muito tempo de separação, que pergunta, depois do cumprimento efusivo da praxe: «E, então, já tens netos?».

Eles olham, olham, vêem as rugas, as cãs … (como se estivessem defronte do espelho, num exercício de memória) e ficam prisioneiros da sua própria condição de avós e de duas, uma: desfiam o novelo das gracinhas ou das patifarias (depois depende do grupo etário em que enquadram os netos…). E acham que, por bem e por mal, todos da idade deles têm que passar por isso. Ao menos, nominalmente, envelhecem com os netos ao lado… mesmo que eles, quando começam a dar conta do seu destino, nunca apareçam senão em dias certos, para receber a mesada…

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