terça-feira, 20 de outubro de 2009

Uma carta (ainda) sem resposta...

Tenho sobre mim uma carga enorme! Queria aproximar uma mãe dum filho que ela ama, mas não tenho tido êxito. Receio que ela parta desta vida triste e o filho fique, para sempre, roído de remorsos por não ter dado oportunidade ao amor de mãe. Minutei e enviei uma carta, que agora levo ao conhecimento de quer quiser levar esta carga comigo. Carta sem resposta! É o silêncio dum homem com prestígio social, com filhos, mas incapaz de dar lugar ao perdão… Em criança ensinaram-lhe que o perdão é sinal de grandeza, não de fraqueza; mas esqueceu-se…Infelizmente. Se o povo tivesse sempre razão, diria com ele: «Cá se fazem, cá se pagam…». Só em certo sentido é assim. Preferia que cá se fizesse mais pelo amor e cá se recebesse mais o que é consequência dele…

«Sr. Dr.

Tenho o assunto em mente há muito tempo e, ultimamente, não passa um dia em que não pense nele e no sofrimento que lhe está directamente associado.

Falo da sua mãe, (…) que a vida colocou no meu caminho, por razões puramente profissionais, como sabe, e por quem tenho, hoje, grande respeito e admiração.

Não venho historiar as razões jurídico-processuais que se discutiram em tempos muito remotos, nem falar dos incidentes, talvez desagradáveis ou incompreensíveis, muitos deles com marcas nas nossas recordações, em particular nas daqueles que estavam mais próximos das partes; quando tratamos os temas sob uma perspectiva profissional, é mais fácil apagar os vestígios menos bons da tramitação dos processos, mas o problema é que, por dever deontológico, nós, os advogados, mas também, certamente, os médicos, como o senhor, estamos vinculados à defesa dos direitos humanos, contribuindo para que não sofram os cidadãos, seja por que motivo for, e isso tem uma envolvente ética indelével, que nos marca a vida e também nos faz co-sofredores.

Apesar de ter arquivado os respectivos dossiês há muitos anos, eu próprio guardo na memória momentos menos conseguidos no protagonismo processual, necessário, como ambos sabemos, para alcançar a justiça que consideramos melhor para os interesses que patrocinamos, os quais, à luz do que sou e sei hoje, provavelmente agiria doutro modo, evitando excessos de forma, procurando melhor e mais eficientemente a substância. Passou tanto tempo, meu Deus! Lembro-mo que, quando a Sr.ª (…), sua mãe, me contactou pela 1ª vez, estava o primeiro processo em curso no Tribunal da Boa Hora, cuja iniciativa não fora dela, como se lembrará, acabara de nascer a minha filha mais nova, que já se licenciou e exerce a profissão de Enfermeira… O tempo voa, sem nos darmos conta.

Eu sei, Sr. Dr. (…), que todos erramos. A sua mãe, eu próprio, o senhor, alguma vez cometemos um erro, e sofremos as consequências, assumindo-o ou não. Mas a sua mãe, estou certo, na sua simplicidade, nas suas poucas letras, na sua forma de ser e estar na vida, pautada pelos valores próprios da sua fé, que mantém, procurou fazer o seu melhor. Ficou mais pobre de tudo, num determinado momento da vossa vida, mais pobre nos valores que animam o Homem – a família, os filhos, tudo o que isso representa. Tenha cometido o que erro que cometeu, não é caso que mereça, entre nós, castigo para sempre! Há espaço, há tempo, há razão para ser indulgente, para desculpar, para sarar.

É verdade que ainda me perguntei por que não tomou ela, na altura própria, iniciativas judiciais, em especial, para reatar, no tempo próprio, o contacto convosco, consigo e com a sua irmã, num tempo em que certamente era crucial não se distanciarem os parentes nem se alienarem os vínculos afectivos, por ténues que fossem. Fui entendendo, ao longo do tempo, que sendo o que ela mais queria – ter os filhos, conviver, fazer o seu papel de mãe – não estavam ao seu alcance, nas circunstâncias concretas, os meios para tão difícil missão. Se permite a opinião de quem perdeu a mãe antes dos 15 anos, e até hoje chora por tê-la visto partir tão prematuramente, não ter mãe é muito triste!

Ao longo dos anos, sempre que falei com a sua mãe, D. (…), a vossa lembrança era obrigatória e manifestava-se nas lágrimas choradas, no coração contristado, nos lamentos de mãe. Muitas vezes pensei em desistir do patrocínio – muito trabalhoso e exigente, como sabe, nas situações em disputa – tamanha era a carga que tinha de suportar, traduzida em tristeza profunda. O pior é que, para além das soluções jurídicas que lhe podia sugerir, não tinha meios para a ajudar eficientemente. Ela pedia pouco, mas muito importante: queria ver os filhos, falar-lhes, explicar-se, sei lá, desculpar, ser desculpada… não queria, porém, vê-los envolvidos nas teias da justiça, mesmo que isso implicasse, como implicou, ficar arredada do convívio dos filhos, à altura ainda menores.

Veja bem, Dr. (…), fiz o que pude, aconselhando, ajudando, animando, perspectivando-lhe, como última ratio, que o futuro, o decurso do tempo, quiçá a nova geração saída do seu sangue, encargar-se-íam de aclarar tudo, trazer os filhos de volta, retomar contactos, recuperar afectos, o tempo perdido… Ela não tinha outra saída e… acreditava, chorando, chorando sempre!

Não posso precisar quando, mas decorreu muito tempo entretanto, a D. (…), sua mãe, disse-me que, ao menos, gostaria de saber dos seus netos, vê-los, poder ser avó. Dei-lhe conselhos, sugestões, voltei a propor-lhe a via judicial (desculpar-me-á mas nunca perdi a noção de que era advogado e que, para nós, esse recurso nunca está descartado). «Nem pensar, nem pensar», era a resposta pronta dela. Um dia, face ao conhecimento que teve do nascimento da neta, filha da sua irmã, falou-me do seu desejo em conhecê-la. Sugeri-lhe que fizesse um presente, obra das suas mãos, da sua inteligência, e lho fosse levar… Oh! E as dificuldades que isso representava! Mas o amor, o sangue, o meu estímulo, firmaram-lhe os pés e lá foi… Fiquei tão feliz como se o assunto fosse pessoal, da minha família! Vê-la num processo difícil, doloroso, de aproximação à filha, com a visão no futuro ali presente, a neta! Há milagres se os deixarmos acontecer.

Por outro lado, ela, a sua mãe, tomou várias iniciativas, infelizmente não tão bem sucedidas, para falar com o filho, consigo, Dr. (…), cujo malogro a deixa tão infeliz.

A D. (…) nasceu em 1928; vai, por isso, este ano, completar 81 anos de idade! Não tem muita saúde. Sei, porém, que continua a acreditar que Deus não a chamará para si sem lhe permitir, por momentos breves que seja, falar consigo, Dr. (…), o seu filho primogénito, que ela, como sabe e pode, ainda ama, falar e conhecer os netos, os seus filhos, Dr. (…), por quem pede a Deus para que cresçam e vivam felizes com os pais.

Sei que pode considerar – e está nesse direito! – a minha iniciativa, no mínimo, ousada, já que a sua mãe, peremptoriamente, sempre recusou exercer os seus poderes-deveres por via de uma qualquer decisão judicial, mas, para também aliviar a minha carga, o peso da minha dor, sugiro-lhe que medite e não impeça o milagre que esta anciã, sua mãe, avó dos seus filhos, quer que aconteça na vida dela, que já não será, na lógica humana, tão longa quanto a sua, a minha, a dos nossos filhos.

Esse desejo, esse sonho é tudo quanto lhe resta e lhe traz ainda o ânimo para viver, porque, não fora isso, estou certo preferiria que o Senhor a chamasse, que lhe desse morada na casa celestial como prometeu, onde cessa o choro, onde acabam as lágrimas.

Deixe-me terminar dizendo o que ambos bem sabemos: só a verdade tem potencial para nos manter livres! Podemos chegar a ela de muitas maneiras: o perdão, a desculpa, a bondade, a misericórdia, o bom senso, o que de melhor temos dentro de nós podem ser meios para tanto.

Ademais, mãe é mãe, e prevalece o mandamento (nós assumimo-lo, em consciência, como regra de vida, independentemente da filosofia que adoptemos…) de que, para que a vida nos sorria, nos vá bem, tenhamos o respeito dos nossos filhos, lhe devemos honra; mas, sendo humano e compreensível, violar esse dever, não é de maneira nenhuma sensato, pensando no nosso amanhã como pais, mantermo-nos nessa atitude. Por ela, por si também, se me permite, pelas gerações novas e futuras, que herdarão, seguramente, também esta parte do vosso legado, o digo.»

José Manuel Martins

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