Hoje fui e vim a correr a Lisboa! Se quiserem, fui num pé e vim no outro... Não se decide todos os dias ir a Lisboa, embora daqui lá seja um instante (demora mais ir do Bronx a Manhattan de metro...): usando o moderno (já tem 10 anos, afinal...) comboio da Ponte 25 de Abril, chega-se da Amora a Entrecampos em 23 minutos. De carro, nunca se sabe o tempo que leva...
A ideia de ir surgiu quase de modo espontâneo: «Vamos a Lisboa deixar o carro na oficina para revisão e inspecção, e damos por lá uma volta?», sugeri eu à minha mais que tudo. «Vamos! Nem é tarde nem é cedo... hoje o tempo, ameno, ainda nos vai permitir uma passeata pelas ruas de Lisboa... antecipamos o Natal e ouvimos já os vendedores de castanhas assadas a dizer que "uma dúzia são dois euros", o que é caríssimo...», assentiu ela, feliz.
Só tínhamos um destino conhecido – o representante da marca do carro. Quando entrámos
Não demorei nada na oficina nem a lá chegar. Trânsito fluído às 2 da tarde, recepcionista de confiança, foi só entregar a chave e dizer onde estavam os documentos... Vim a pé rumo à Almirante Reis, virei para norte e antes de chegar ao Chile, na Portugália, virei à esquerda e fui por ali acima a mirar Lisboa, aqui e ali decrépita, prédios antigos em ruínas, trânsito intenso, pouca gente, comparando com as grandes metrópoles ibéricas (Madrid, Barcelona ou, mais pertinho de nós, Sevilha, a este, ou Corunha, a norte...)...
Deixei-me imbuir do espírito Outonal que se via nas folhas das árvores tremelicantes, em resistência a uma brisa leve, que refrescava a pele, ainda assim molhada pelo esforço da subida até ao Saldanha.
Antes tinha telefonado e dito à minha filha que estávamos em Lisboa e que não contasse connosco para a ir recolher à Estação do Comboio quando regressasse do trabalho. Na minha cabeça forjou-se um plano: antes que a minha mulher se canse de apreciar a moda para o Outono/Inverno (e vai demorar muito tempo até que isso suceda...) meto-me na Almedina e aproveito para comprar uns Códigos actualizados (foi tal a sanha legislativa nos últimos anos que nenhum código resiste actualizado meio ano...). Pensei no Civil (hesitei logo: mas já não está na Assembleia da República um projecto de Lei do Bloco para alterar o regime do casamento, de modo que onde está escrito «Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família...» passe a contar «Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família...». Possa! Se tiram à redacção actual «de sexo diferente»... fico logo com o Código desactualizado!), mas passei imediatamente para o Processo Civil (hesitei também: afinal os Juízes querem suspender o CITIUS e talvez tenham guarida para a sua pretensão no Parlamento... Isso pode implicar a alteração de algumas normas... fica logo desactualizado o Código!)... Quando entrei na Livraria (primeiro perguntei em que piso ficava pois há muito que não ía lá e senti-me desorientado), já só pensava
Nestas hesitações, comecei por dar uma vista de olhos pela literatura infantil, a oferta e preços disponíveis (dei comigo a comparar com o produto da letras d'Ouro, para este segmento de leitores, que está
Passei aos Códigos... Já me tinha esquecido as preocupações quanto à desactualização frequente deles... Estava a apreciar a relação qualidade/preço... Toca o telefone: «Papá, estou à porta de casa e não tenho chave para entrar... deixei-a no meu gabinete de trabalho... não posso voltar a Lisboa para ir buscá-la...» – disse-me a minha filha, aborrecida não tanto por se ter esquecido da chave mas por não estarmos
Saí
De mãos dadas, desci com a minha mulher a Rua 5 de Outubro, do Saldanha a Entrecampos... Estão por ali, naquelas avenidas que lhe são perpendiculares, obras de vulto, prédios modernos... até a antiga RTP se transmudou
Gostei de ver Lisboa de Almirante Reis ao Saldanha e ao 5 de Outubro. Vou voltar com mais tempo, certificando-me que a minha filha, se estiver fora de casa, tem chave para entrar...
PS: Se gostam de Saramago como escritor, comprem CAIM; se, como leitores, estão habituados a ser respeitados pelos autores, pensem duas vezes (mesmo que, no caso, não sejam nem cristãos nem judeus... apenas leitores a quem ninguém falta ao respeito...).
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