segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Hoje fui a Lisboa...

Hoje fui e vim a correr a Lisboa! Se quiserem, fui num pé e vim no outro... Não se decide todos os dias ir a Lisboa, embora daqui lá seja um instante (demora mais ir do Bronx a Manhattan de metro...): usando o moderno (já tem 10 anos, afinal...) comboio da Ponte 25 de Abril, chega-se da Amora a Entrecampos em 23 minutos. De carro, nunca se sabe o tempo que leva...

A ideia de ir surgiu quase de modo espontâneo: «Vamos a Lisboa deixar o carro na oficina para revisão e inspecção, e damos por lá uma volta?», sugeri eu à minha mais que tudo. «Vamos! Nem é tarde nem é cedo... hoje o tempo, ameno, ainda nos vai permitir uma passeata pelas ruas de Lisboa... antecipamos o Natal e ouvimos já os vendedores de castanhas assadas a dizer que "uma dúzia são dois euros", o que é caríssimo...», assentiu ela, feliz.

Só tínhamos um destino conhecido – o representante da marca do carro. Quando entrámos em Lisboa (Amoreiras, túnel do Marquês - o do Santana, do Carmona... sei lá, dos Lisboetas que têm de o pagar...), Fontes Pereira de Melo, Saldanha... «Menina, ficas aqui, queres?» – disse eu, olhando para as portas do Centro Comercial do Saldanha (aquele que, em parte, ocupa o espaço do velho Monumental, onde, à mesa, celebrei, em 31 de Outubro de 1981, a conclusão da Licenciatura em Direito com o próprio Professor e assistentes que me avaliaram na última prova, às 21 horas... Ah! Ainda guardo o soneto que ele me dedicou, escrito ali mesmo, num guardanapo de papel...). «Deixo o carro, volto a pé e encontrámo-nos aqui...)». «Está bem», disse ela enquanto abria a porta para sair e uns morcões se preparavam para businar...

Não demorei nada na oficina nem a lá chegar. Trânsito fluído às 2 da tarde, recepcionista de confiança, foi só entregar a chave e dizer onde estavam os documentos... Vim a pé rumo à Almirante Reis, virei para norte e antes de chegar ao Chile, na Portugália, virei à esquerda e fui por ali acima a mirar Lisboa, aqui e ali decrépita, prédios antigos em ruínas, trânsito intenso, pouca gente, comparando com as grandes metrópoles ibéricas (Madrid, Barcelona ou, mais pertinho de nós, Sevilha, a este, ou Corunha, a norte...)...
Deixei-me imbuir do espírito Outonal que se via nas folhas das árvores tremelicantes, em resistência a uma brisa leve, que refrescava a pele, ainda assim molhada pelo esforço da subida até ao Saldanha.

Antes tinha telefonado e dito à minha filha que estávamos em Lisboa e que não contasse connosco para a ir recolher à Estação do Comboio quando regressasse do trabalho. Na minha cabeça forjou-se um plano: antes que a minha mulher se canse de apreciar a moda para o Outono/Inverno (e vai demorar muito tempo até que isso suceda...) meto-me na Almedina e aproveito para comprar uns Códigos actualizados (foi tal a sanha legislativa nos últimos anos que nenhum código resiste actualizado meio ano...). Pensei no Civil (hesitei logo: mas já não está na Assembleia da República um projecto de Lei do Bloco para alterar o regime do casamento, de modo que onde está escrito «Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família...» passe a contar «Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família...». Possa! Se tiram à redacção actual «de sexo diferente»... fico logo com o Código desactualizado!), mas passei imediatamente para o Processo Civil (hesitei também: afinal os Juízes querem suspender o CITIUS e talvez tenham guarida para a sua pretensão no Parlamento... Isso pode implicar a alteração de algumas normas... fica logo desactualizado o Código!)... Quando entrei na Livraria (primeiro perguntei em que piso ficava pois há muito que não ía lá e senti-me desorientado), já só pensava em comprar o Código de Processo Penal... mas pensei: «Não apresentou o CDS/PP um projecto de lei para que os criminosos apanhados em flagrante delito sejam julgados em 48 horas?! Isso vai dar cabo do Código e não tarda tenho que comprar outro, para ficar actualizado (!)». E não vão ser agravadas as penas para os crimes de sangue e alterada a alteração ao regime da prisão preventiva?

Nestas hesitações, comecei por dar uma vista de olhos pela literatura infantil, a oferta e preços disponíveis (dei comigo a comparar com o produto da letras d'Ouro, para este segmento de leitores, que está em divulgação - A Formiga Irrequieta - e conclui que é competitivo...), passei à literatura, deitei mão ao Bingo!, obra de Esther Tusquets, novidade nos escaparates, mas deixei-o no lugar («No regresso, levo-o», disse para comigo pois ainda não abandonara o propósito de deitar mão a algum Código na Secção de Literatura Jurídica, mais adiante...). Andando, deparei-me com a novidade da Caminho, o Caim, de Saramago... Li a contracapa e achei esquisito que transcrevesse um texto do Livro Aos Hebreus, do Novo Testamento, indicado o respectivo capítulo e verso. Abri o livro e fiquei chocado (embora deste Nobel da Literatura se possa esperar a maior falta de respeito seja por quem for... tem um elefante na barriga... ou um convento no memorial...) pois no interior, logo na folha de abertura, transcreve o mesmo texto e diz que o citou do «Livro dos Disparates» (acho que é assim que ele designa aquele livro do Novo Testamento...). Passei de imediato à leitura e fiquei-me pelo primeiro parágrafo. Simplesmente chocante... E mais não digo (porque também não li...) até que tenha coragem para enfrentar o homem, cara a cara, lendo-o desconfiadamente e esperando a par e passo uma enormidade contra os valores em que acredito... Como fiz quando publicou o Evangelho Segundo Jesus Cristo, treslendo os apócrifos para vituperar os fundamentos da fé cristã e evangélica...

Passei aos Códigos... Já me tinha esquecido as preocupações quanto à desactualização frequente deles... Estava a apreciar a relação qualidade/preço... Toca o telefone: «Papá, estou à porta de casa e não tenho chave para entrar... deixei-a no meu gabinete de trabalho... não posso voltar a Lisboa para ir buscá-la...» – disse-me a minha filha, aborrecida não tanto por se ter esquecido da chave mas por não estarmos em casa...
Saí
sem Códigos, a ruminar contra Saramago e até me esqueci do Bingo!
De mãos dadas, desci com a minha mulher a Rua 5 de Outubro, do Saldanha a Entrecampos... Estão por ali, naquelas avenidas que lhe são perpendiculares, obras de vulto, prédios modernos... até a antiga RTP se transmudou em VIP Grand Hotel de muitas estrelas...

Gostei de ver Lisboa de Almirante Reis ao Saldanha e ao 5 de Outubro. Vou voltar com mais tempo, certificando-me que a minha filha, se estiver fora de casa, tem chave para entrar...

PS: Se gostam de Saramago como escritor, comprem CAIM; se, como leitores, estão habituados a ser respeitados pelos autores, pensem duas vezes (mesmo que, no caso, não sejam nem cristãos nem judeus... apenas leitores a quem ninguém falta ao respeito...).

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