sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Basta a cada dia o seu próprio mal!

Não podemos fugir dos compromissos essenciais à existência. Como é óbvio! Se fugimos, desistimos de viver, o que é o mesmo que estar enterrado, andando por aí… Há muitos mortos andantes, que se levantam todos os dias e não sabem o que fazer, não sabem como ocupar o tempo. Encalham no sofá, à mesa do café, na roda dos amigos de sempre, também eles andantes sem ânimo, à frente do ecrã… Deixaram de sonhar! E sonhar é projectar o amanhã imediato, aquele que começa quando o sol nasce ou o «relógio biológico» ordena que se saia da cama. Por difícil e sombrio que seja o dia ao amanhecer ou ao levantar não devemos «inventar» outros males, outros dias sombrios e difíceis que provavelmente se seguirão. Com as dificuldades do amanhã governo-me bem! Com as de hoje vou lidar o melhor que souber (por isso é que vale a pena ter referências, valores, ideologia: nesse quadro sabemos como funcionamos e não andámos à deriva ainda que o mar se encapele e ruja mais do que é costume…).

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Tinha «programado» o meu dia de hoje (não é mal nenhum fazer a agenda do dia seguinte…) duma certa maneira e deitei-me sereno, impetrando a Deus (depois dos agradecimentos pertinentes e sempre devidos) que, se acordasse, tudo se passasse exactamente como planeara. Nós somos assim, e é humano e natural ser, cada um, exactamente assim: Deus manda, é soberano, faz como quer, mas… nós é que pomos e dispomos! Depois vêm as consequências: se corre como queremos, como planeamos, fica tudo em cima, eleva-se aos píncaros a auto-estima; se o mal vem em dose dobrada (nada correu como tínhamos previsto, logo ao sair da cama torcemos um pé, ou temos um treçolho no olho esquerdo, ou queremos escovar os dentes e doem as gengivas… aqui d’el Rei que o mal é muito, amanhã vai ser pior, porque a começar assim só pode ser pior amanhã… As mais das vezes o mal (o que não queremos, ou a forma como tudo acontece exactamente contrária à que projectáramos…). Porque será que agimos sempre assim: o mal e a caramunha?

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Não dormi tão bem quanto queria e, de madrugada, vociferei: vai-me correr mal o dia! Ainda tentei conciliar o sono mas não tardou que, em casa, começasse a azáfama (acende luz, apaga luz, abre torneira, fecha torneira, liga secador, desliga secador…) e o ambiente ficasse prenhe do cheiro a …pão torrado! Ah… Não há mal nenhum em ter dormido pouco (e mal…): «Toca a levantar e aproveita o momento» – ouvi dentro de mim. Fiquei apenas com o «mal» de ter acordado cedo, esqueci-me que isso representaria mal-estar pelo dia fora, e outros males que tenderia, noutras circunstância, a trazer (ou antecipar) do futuro. «A cada dia o seu mal», repeti interiormente. Vesti o fato de treino, tirei o carro da garagem, fui levar a minha filha à estação do comboio, apanhei um jornal diário gratuito, actualizei as notícias, comi pão com doce de tomate, vi o correio electrónico… e voltei para a cama um hora depois…O pior é que às 9 horas e 22 minutos o carteiro tocou à porta, quando o costume é apenas fazê-lo à hora do almoço… Recebi o correio em pijama e a resmungar: «Logo hoje, homem, que acabei de me deitar e estava no primeiro sono, toca à campainha (tocou duas vezes…) dessa maneira… não sou surdo…». «Desculpe», disse-me, «mas vim cedo para fugir à chuva…». Compreendi e disse-lhe: «Sabe, hoje tinha intenção de só me levantar a horas de poder estar em Lisboa às 13 horas…» (o homem nunca me tinha visto de pijama aquela hora, mas também nunca tinha aparecido com o correio tão cedo…). E ficou ali enterrado o «mal»! Noutras circunstâncias anteciparia o mal do dia seguinte: «Amanhã, se quiser dormir até tarde, não posso… estes carteiros, que vêm à hora que querem, sem avisar…».

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