O cacto queria explicações, a erva daninha fazia acusações, a rosa cogitava em muitas interrogações, dedal-de-dama falava com os seus botões e o cravo queria…soluções! Não podia deixar que faltasse espaço no jardim das orquídeas para as plantas originárias se desenvolverem, aprofundar as raízes e expressar a sua beleza através de cada vez mais bonitas flores perfumadas! O jardim tinha que crescer saudável e esse projecto exigia a combinação de esforços de todas as plantas do jardim, em particular das que o cacto protegia. Compromisso! Sim, só o compromisso podia salvar o jardim. O cacto chorou amargamente por ter lado ouvidos às detractoras de dedal-de-dama, aos correios da mentira que lhe intoxicaram os espinhos… Ficou débil e quase se curvou sob o peso da responsabilidade de ter debitado discurso descabido – sabia-o agora, diante da factualidade relatada pelo cravo – contra dedal-de-dama, que agora dizia ser virtuosa, serena, essencial à protecção e vigilância do jardim e, quiçá, a mais entusiástica planta aromática do jardim (o cravo notou-lhe alguma ironia no tom, parecendo-lhe, pelo trejeito, que queria manter a erva daninha agradada…) … Ignorou a rosa, que mantinha todas as interrogações iniciais: Não embelezara, desde sempre, o jardim das orquídeas como ninguém? Havia odor comparável ao que sempre espalhara naquele recanto florido? O cravo, o jasmim, a açucena, a dedal-de-dama ainda acreditavam que ela quisera conquistar a simpatia da erva daninha e que estava convencida que o conseguira?
Ah! Agora sim, estava tudo a descoberto. Mal entendidos ocorrem em todos os jardins onde existem plantas de raiz diferente… Fora o que acontecera ali, concordaram as plantas do jardim das orquídeas mais o cacto que viera de fora. A erva daninha mostrou o seu melhor sorriso, adulou o cacto – que generosidade ele demonstrara ao admitir que fora apenas um mal entendido quando bem sabia, por lhe ter sido dito por ela, que dedal-de-dama conspirara contra o estatuto dele, querendo diminuir-lhe a importância! – e passou à frente como se não merecesse que lhe exibissem as mentiras com que envenenou o cacto, tornando-o quase surdo como a serpente que não ouve a música dos encantadores. Merecia, mas não exibiram… Pior para elas, as plantas do jardim das orquídeas, que agora querem água para beber e estão a contas com as reivindicações das plantas recém-chegadas, às quais a erva daninha continuou a injectar o veneno da inveja… veneno agridoce pois ora diz, em coro com o cacto, que o jardim das orquídeas precisa de água para manter o melhor odor que conhece, ora diz que as ervas ao redor têm prioridade, por serem a guarda avançada da protecção do jardim, mesmo que isso represente deixar o cravo, a rosa, dedal-de-dama morrer à sede.
Quem conhece o jardim das orquídeas atesta que as plantas estão a resistir… e que o jasmim investiga a fórmula de neutralizar a acção nefasta da erva daninha. Quem sabe se não terá já o antídoto para lhe neutralizar o veneno, que tem poder de morte, mas é servido com doçura!?
PS: O jardim das orquídeas não existe e nem sei se há no mundo um sítio onde cresça uma erva daninha capaz de conjecturar um plano para matar sem…dor!
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