(continuação)
Ficaram estupefactas as plantas do jardim das orquídeas. Não é que não soubessem que se roía de inveja quando não participava dos eventos marcantes para as plantas do jardim. Queria estar sempre presente pois eram oportunidades para demonstrar, por um lado, que era possível esbater as diferenças, ou mesmo anulá-las, aparecendo nos mesmos ramos de enfeite…por outro, o ego agigantava-se-lhe quando aparecia sublinhado nas conversas do jardim o seu poder de atracção: «Vejam lá… um simples cacto, como faz um ramo tão bonito, cheio de harmonia, associado ao cravo, à rosa, ao jasmim… até mesmo com dedal-de-dama e açucena estabelece uma simbiose que alegra o ambiente do jardim…». Se algum mérito tinha o cacto era esse: o de iludir! Vivia das ilusões que mostrava às plantas de todo o jardim, em particular às que estavam plantadas no espaço dominado por ele: «Sim, mando até no jardim das orquídeas! Não há mais do que um jardim, aqui: sou a referência de todo o jardim!»
- Vamos lá! – comunicou o cravo à rosa e à dedal-de-dama.
- Vamos aonde, podemos saber? – perguntou a rosa, apreensiva, pois vira o semblante carregado do cravo, que deixou cair várias pétalas, até ali hirtas, viradas para o sol que escapava por entre as ramas dos arbustos que faziam fronteira com a via que o jardineiro guardião usava.
- Aos domínios dessa «coisa», que se dá por cacto e quer fazer o papel de planta importante… Aonde é que já se viu tamanho desmando? Mandar contra a ordem natural estabelecida é mau prenúncio… A ordem natural manda que se não façam julgamentos nas costas das plantas do jardim. Manda ainda que não se tirem conclusões sem dar voz àquelas de quem se fala, de quem se diz ter posto em causa a harmonia do jardim por acção ou omissão… – vociferou o cravo.
- Então vamos… – disseram em uníssono a rosa e dedal-de-dama (o jasmim estava já com o pensamento noutro jardim que nem ouviu a conversa dos três; por seu lado, a açucena, percebendo o imbróglio, entreteve-se a aplanar os montinhos de terra formados no jardim pela movimentação das ervas daninhas que, na ânsia de escutar a conversa, se deslocaram rapidamente, como se fossem toupeira, para mais próximo dos domínios do cacto, nos quais estava já a erva daninha mor…)
- A que devo a honra de tão amável visita? Parece que os ares não estão perfumados como é habitual… nota-se assim como que um misto de doce e azedo, um odor… agridoce! Ou é impressão minha? Quando se junta o cravo, a rosa… os dois, falando verdade, dão o melhor perfume deste jardim… (olhando para dedal-de-dama fez um trejeito de rejeição como que querendo dizer: «o mesmo não se pode dizer de ti… quando te atiras aos invasores, não lhes poupas a dose de veneno… e não estás lá muito bem da consciência por andares por aí a combinar festanças nas minhas costas…».
- Não digas que não! Eu ouvi… estava por trás de ti e bem te ouvi dizer que ias pôr as flores em alvoroço, a cantar e a dançar, como se embelezassem um festim nupcial… – disse a erva daninha sem que lhe dessem permissão para falar. – Não desmintas! É verdade e fui eu que comuniquei ao cacto que querias ultrapassá-lo e isso não podia tolerar… eu sou muito leal… – concluiu enquanto procurava uma posição onde mais facilmente não se reparasse que tinha mudado repentinamente de cor e que agora as «extensões» não presas à terra apresentavam-se quase avermelhadas. Foi como que se lhe tivesse injectado um líquido vermelho nos vasos sanguíneos que se mostrava com a seiva de cor verde que lhe dava a pigmentação da pele…Enquanto falava, inchavam-se-lhe as hastes em que se dependuravam umas ridículas folhas cabisbaixas, parecendo que uma fonte de energia se renovara e a alimentara momentaneamente. Só podia ser o veneno que lhe misturara na seiva… o veneno agridoce: digo bem do cacto, não hostilizo o cravo, pisco o olho à rosa, mas o que quero é morder mortalmente dedal-de-dama, para aprender…»
(cont.)
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