Num inquérito de Verão (Diário de Notícias, 20/8/2009, pág. 53), Ascenso Simões, membro do Governo de Portugal (Secretário de Estado do Desenvolvimento Rural e Florestas) e militante do Partido Socialista (director do jornal de campanha do PS), à questão que lhe foi colocada (Três sítios onde tem mesmo de ir antes de morrer») respondeu: «Sou católico praticante. Já fui a Roma mas não a Belém. E gostava de ir ao Céu antes de morrer, para confirmar se é como dizem».
A uma questão destas um inquirido comum responderia: «Não faço questão de ir a nenhum sítio em especial antes de morrer» ou «Antes de morrer irei a tais sítios…» (três sítios, não mais, nem menos); mas um Governante e alto dirigente dum partido político não é um inquirido comum e, por isso, não podia esclarecer a questão como ela lhe fora posta visto que os políticos nunca respondem ao que se lhes pergunta: se lhe perguntam alhos, respondem bugalhos! Está consensualizado que os políticos dizem apenas o que querem, não respondem ao que lhes perguntam. O inquirido não fugiu à regra e deixou uma questão simples por responder porque o inquérito não lhe interessava enquanto tal, mas sim como oportunidade para fazer campanha política. Aliás, se os leitores do inquérito de Verão do DN tivessem quaisquer dúvidas acerca da motivação do inquirido logo as veriam dissipadas mais adiante quando, a propósito de ter ou não ter saudades depois das férias, e como faz para as matar, respondeu que «Só houve um ano, já há muito, em que matei saudades com um vinil de fado. Saudade e fado juntos são uma mistura explosiva que nos alerta para a impossibilidade prática de termos um Governo liderado por MFL».
Os ataques aos adversários políticos ficam sempre bem nas intervenções públicas dos governantes (como provavelmente respondeu ao inquérito durante o período de férias ou nas horas livres, nem usou a cargo para fazer campanha à custa do Orçamento…). Mas já não sei se manifestar-se socialista e católico praticante ao mesmo tempo é uma orientação estratégica que granjeie votos, especialmente quando o «católico praticante» dá mostras de que não sabe nada acerca do seu credo ou – pior ainda – brinca com ele. O inquirido, sem que lho tivessem perguntado (e se lho perguntassem podia recusar responder porque a religião de cada um é a religião de cada um…), disse: «Sou católico praticante». Podia dizer apenas: «Sou católico». Não!
Quis distinguir-se dessa maioria difusa que se identifica como «católica, mas não praticante», essa multidão imensa de portugueses que o é por tradição, não por convicção. O praticante, como é o inquirido, pratica! No caso concreto, a prática do inquirido deve implicar apenas ouvir o que os outros dizem. Sim, porque doutra forma não teria as dúvidas que tem! Pode-se ser católico praticante sendo incrédulo acerca do destino eterno? Pode-se ser católico praticante invocando como fonte de conhecimento o que os «outros dizem»? Parece que não. O inquirido podia viver mais seguro, sem desconfianças, se, além de ouvir os outros, lesse os textos que sustentam o que os outros dizem (não «uns outros quaisquer», mas os que ministram o ensino aos «católicos praticantes» …) Não lhe ficaria mal ler Catecismo acerca do céu e do que ele significa para o católico praticante (afinal «viver no Céu é “estar com Cristo”» - cf. Catecismo da Igreja Católica, pág. 231).
Que o inquirido quisesse apresentar-se «ao eleitorado» como «católico praticante», sendo militante socialista, não vem daí nenhum mal ao mundo. Mas apregoar tal condição e ao mesmo tempo colocar em crise o substrato doutrinário em que a fé dos católicos se sustenta não é de todo coerente. Mais. Parece contraproducente elevar-se no estatuto de católico praticante e depois duvidar do que lhe dizem acerca do céu. Admito que lhe tenham dito maravilhas do céu e só por isso o inquirido quer «morar» lá quando morrer… se tiver antes, em vida, confirmado que o lugar preenche as condições de habitabilidade para um «católico praticante» e militante socialista! Se pudéssemos chegar à fala, dir-lhe-íamos: «As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam».
Assim, é melhor tirar o «cavalinho da chuva» e, antes de morrer, visitar outro lugar porque o céu é um presente-surpresa da parte de Deus – quando chegarem lá «os que o amam» logo saberão… Nada de antecipações.
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