
Faz sentido a fé no momento da morte?
Pergunta: «Qual é a sua relação com a morte. Sente que vive este tempo em desconto?»
(Laurinda Alves)
Resposta:
«Sou cristão e nisso não tenho angústia nenhuma. A morte é uma passagem para outra vida. Nesse sentido até me choca um bocadinho que nas missas de corpo presente, nesses momentos que são imediatamente dolorosos, não haver a ideia de Acção de Graças. Mesmo os cristãos vêem só o lado da separação física, em vez de darem graças por se ter aberto uma nova vida, que no fundo é o que nós andamos a fazer aqui. Andamos por aqui em peregrinação, o tal rally paper para essa outra vida. E quando chega a morte as pessoas pensam como se a sua fé não fizesse sentido nenhum. Ora se a fé faz sentido, então a morte tem que ser lida à luz dessa fé.»
(Marcelo Rebelo de Sousa, i, 15/16 de Agosto de 2009, pág. 25).
Entre mim e o entrevistado existe uma relação antiga, que se iniciou em 1975. Mas não o conheço pessoalmente (quando andei pela FDL, ele andava pelo Expresso e pela política; quando andei pela política, ela voltara à FDL; quando ele voltou à política, já não me interessavam as lides partidárias e nas vezes que voltei à FDL, por razões exclusivamente académicas, nunca o encontrei…). Nem eu sei muito bem explicar a origem dessa relação, que é emocional, cultural, se quiserem, de valores; provavelmente ter-se-á gizado no tempo em que ele, MRS, escrevia a segunda página do jornal Expresso… muito provavelmente por aquilo que ele escrevia e que eu subscrevia sem reservas… muito provavelmente por ele nunca ter escondido o facto de ser cristão e assumir-se como tal em diferentes circunstância do seu percurso pessoal na academia, na política, na vida…
Hoje li a entrevista que deu a Laurinda Alves e parei para reflectir neste aspecto particular do seu discurso público reiterado: «Sou cristão…». Identifico-me com essa atitude e louvo-a por constituir um traço distintivo – e o autor da declaração não precisava dele para marcar a diferença pública que existe com tantas outras personalidades que marcaram o nosso universo social nas últimas quatro décadas… – no posicionamento ideológico, sendo ao mesmo tempo corajosa pelas implicações éticas que arrasta consigo, «manietando» o autor, que não é propriamente um «Frei Tomás» («faz como ele diz, não como ele faz»), no seu testemunho público, que tem que ser consequente (ser cristão, afinal, é imitar Cristo, seguir-lhe o exemplo, ser seu discípulo…), coerente, ética e moralmente consequente e coerente.
Aliás, MRS tem consciência disso e, sempre que o leio, adivinho-lhe (não fosse ele tão perspicaz na análise dos comportamentos humanos) um mecanismo de auto-defesa, de que usa e abusa: ninguém é perfeito e o que importa é que na relação entre o que se faz bem e o que se faz mal, o saldo seja positivo do lado do bem. Na mesma entrevista a Laurinda Alves essa acção de auto-defesa está presente na exemplificação do percurso por pontos; umas vezes acumulam-se, noutras têm que descontar-se, para mais adiante se voltar a acumular. No fundo, é a velha questão que se levantou com a Reforma protestante no século dezasseis: as obras e a fé ou a fé e as obras (ver Tiago 2:14-26, Bíblia Sagrada, Novo Testamento). Neste aspecto, MRS ainda está prisioneiro dessa orientação cristã tradicional de que a salvação (a vida eterna, ou a outra vida que se abre com a morte, como disse à entrevistadora) depende das boas obras, não sendo suficiente a fé (em boa verdade, «a fé sem obras está morta»…), o que – reconhecendo-lhe, como em absoluto reconheço, que essa «insuficiência» não resulta de falta de capacidade para entender a orientação paulina, que Tiago não infirma, antes corrobora, – se deve ao facto de ainda não ter tido oportunidade para melhor reflectir sobre o assunto. Discordamos neste aspecto (a salvação é pela fé, que sem obras é morta, não pelas obras que a fé motiva), mas não foi para isso que viemos aqui recordar esta «nossa» relação antiga, entre laços d’Ontem, a propósito da entrevista ao i. Não! Queremos relevar esse aspecto tão particular e tão decisivo para tirar «a prova dos nove» sobre o valor da nossa fé: na morte, cantamos ou choramos? Na morte apenas «vemos o lado da separação física» e damos um testemunho «chocante» (contraditório, incoerente) com os valores e confiança da fé (e choramos a separação física como uma perda irreparável, injusta, fora de tempo, absurda…) ou activamos o lado da esperança cristã (a vida eterna é pilar inquestionável da fé e vivência cristãs) e transformamos o momento doloroso (a separação é sempre dolorosa) num momento de «Acção de Graças»? Ou seja, porque não se leva à prática aquilo que é coerente com a esperança que a fé gera em vez de valorizar a separação como questão central que se coloca com a morte de alguém?
Temos visto choro em demasia em cerimónias fúnebres; temos visto tristeza infinita em vez de alegria confiante; temos visto lamúria em vez de canto, liturgia em vez de vivência cristã. Parece que para alguns cristãos a morte encerra o processo, quando, afinal, ela «leva pela mão» o que morreu às «moradas celestiais» que Jesus disse ir preparar para justificar a separação física dos seus discípulos.
A fé ainda faz sentido? Então a morte tem que ser lida à luz dessa fé.
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