(continuação)
O lusco-fusco ainda permitia que as plantas circulassem pelo jardim, que é como quem diz, se olhassem olhos nos olhos e comunicassem. Andava o cacto num frenesim, agachado, quase a arrastar-se pela solo, parecendo que se ia quebrar pelo meio, tal era o arco que descrevia para falar ao ouvido das ervas daninhas do jardim, mais as da periferia do que as que se encontravam para lá da zona de vigilância de dedal-de-dama. Ouviam-se os «psst, psst, psst…». Das alturas, mais atenta a recolher a humidade do ar que lhe tornava viçosas as flores do que a controlar os movimentos do cacto, dedal-de-dama estava feliz. Ah! Faria uma festa com a colaboração das flores mais bonitas do jardim, mesmo com a colaboração das que, normalmente, socializavam com a erva daninha. Todas se mostraram contentes por se poderem engalanar para a grande festa de despedida do jasmim…
-Então tu também andas a conspirar… também queres fazer festa ao jasmim… já te passaste para o lado das flores do jardim das orquídeas… – dizia o cacto a cada uma das ervas que atendiam ao psst, psst. em jeito de ameaça.
-Eu não – respondeu-lhe a mais crescida, que deitara raízes à sombra da folhagem de dedal-de-dama. – Apenas ouvi a proposta dela…
- É, não!? Pensas que a erva daninha não escutou a vossa conversa e o entusiasmo que demonstraste? Escutou, não desmintas…. Estava ali, escondidinha, a ouvir, enquanto combinavam o desfile, com as flores abertas, coloridas, para agradar às do jardim das orquídeas no dia aprazado para o jasmim ir para outro jardim… O que eu fiz pela dignificação das plantas rasteiras, como vós, tu e as que aliciaste, e agora escondem-me essa tramóia… querem é pôr todos contra mim… – desatou o cacto a gritar juntos ao solo, só para as plantas rasteiras ouvirem.
- Não senhor! Que é isso!? Só queria festejar… a festa é de todos e p’ra todos… o jasmim merece e ele nem sequer sabe… talvez saibam a rosa, e o cravo…mas eles iam convidar todos os que quisessem participar e depois do plano pronto concitar a anuência das flores de todo o jardim, a tia em particular, que és o guardião das plantas…
- Traidora, traidora…. Mas não te safas, nem essa finória dedal-de-dama… Não lhe digas nada, não lhe digas nada… muito menos que a erva daninha escutou a vossa conversa ali detrás do cacto menor… mas festa é que não vai haver… – desdenhou em tom ameaçador o cacto, indo abraçar-se à erva daninha que ficara mais para trás a contar as plantas que atenderam ao psst do cacto e vieram escutar o diálogo.
Enquanto ambos voltavam às suas posições, a erva daninha lá ia fazendo sinal para que não falassem do assunto e, muito menos, que dissessem que ela escutara a conversa por detrás dum arbusto. O sinal era de ameaça, compreendendo as destinatárias que a quebra do silêncio representaria a desacreditação delas… o que era pior do que morrerem à míngua de água… a ameaça era o veneno agridoce que as manteria caladas e… indisponíveis para participar da festa.
(cont.)
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