quarta-feira, 5 de agosto de 2009

(continuação)

Porquê essa obsessão da erva daninha em relação a dedal-de-dama? O cravo não sabia muito bem explicá-la mas admitia que estivesse relacionada com a facto daquela não ser capaz de se elevar às alturas senão quando está mal tratada e as suas pontas não têm terra a que se agarrar. Por natureza agarra-se à terra, mas pode viver, alargando horizontes, para além dela, a espreitar uma oportunidade de deitar raízes que constituam suportes a experiências parasitárias noutras paragens tão bem tratadas como o jardim onde granjeou reconhecimento.

Ela estava nessa fase agora, querendo mostrar o seu próprio jardim, onde o domínio do cacto criara as condições para a expansão dum maior prado verde, fora do jardim das orquídeas e com intuitos manifestos de deslocar a atenção dos admiradores de plantas e visitantes de jardim para o espaço conquistado «lá fora», que era poeirento, inóspito, sem préstimo e agora está verdejante, à custa da pujança das ervas daninhas…

Entretanto dedal-de-dama crescera, crescera… e era a mais jovem planta do jardim, cuja flor de pétalas amarelo-ouro, tão vistosa, se mostrava o ano inteiro. É certo que gozava dum estatuto especial no jardim: tendo sido a última a chegar, acantonara-se em sítio onde, crescendo, pudesse trepar, passando a ver o jardim lá do alto. Como ela admirava a beleza do cravo, da rosa… como ela se enlevava a contemplar o jasmim, a açucena, a cuja presença se habituara desde que ali fora plantada, vinda doutras paisagens, que embelezava… As suas folhas verdes e brilhantes, agarradas a varas abundantes, chamavam a atenção das outras plantas, que a tinham como primeira barreira protectora do ambiente do jardim: jovem, bonita, determinada e… temível! Passava todo o santo dia ao sol (quando os raios solares ficavam encobertos, o dia corria mal para quem se aproximava dela, fosse pássaro, fosse abelha…) e vivia de mimos a tempo e hora pois alimentava-se do húmus daquela terra, embebido de água fresca ali derramada diariamente…

Ao contrário da rosa, cujas pétalas todos queriam cheirar, o dedal-de-dama não suscitava confiança às plantas menos robustas e tinha até a fama de reagir mal a quem lhe tocasse nas folhas ou arrancar-lhe as flores. Contra as ameaças menores era a primeira lutadora exprimindo-se em gotículas de suor tóxicas. Mas não resistia bem às ameaças vindas de baixo, rasteiras, junto ao sol, que lhe atacassem as raízes ou que se manifestassem longe das folhas que se molhavam em legítima defesa e do jardim das orquídeas com gotículas tóxicas. Ficava vulnerável se atacada por baixo… e foi sabendo exactamente dessa sua fraqueza que a erva daninha atacou o jardim e pôs em causa a sua defesa avançada, neutralizando a dedal-de-dama, vistosa, bem nutrida, mas dependurada do suporte de pedra que transformara em guarita de protecção.

- Cacto, não é admissível que dedal-de-dama possa comandar as flores do jardim das orquídeas que, como nós, ganhámos importância e somos o suporte do jardim…. – declarou a erva daninha logo que soube, escutando conversas entre dedal-de-dama e cactos minúsculos sob protecção de dedal-de-dama. -É abrir portas a abusos e falta de respeito ao nosso estatuto de plantas indispensáveis à continuidade do jardim… não o semeámos, não o plantámos, mas depois que chegámos fizemos dele o que é… Nós fizemos o nosso próprio jardim e já não é para admirar o jardim das orquídeas que as outras plantas vêm visitar-nos. Não! Nós somos o jardim, eu, tu, todas as ervas daninhas que entretanto vieram e aquelas que, de fora, aliciámos… o jardim das orquídeas ou admite que perdeu importância, ou sufocámo-lo. Vamos começar abatendo a dedal-de-dama…

- Mas… e o cravo, e a rosa? O cravo empertigar-se-á e a rosa mostrará os espinhos… Não podemos guerrear sem pôr em causa a unidade do jardim das orquídeas… – constatou o cacto.

- É verdade! E não é isso que afinal queremos a médio prazo!? Nós, as ervas daninhas, estamos fartas de ser menorizadas, tanto mais que agora todos reparam na expansão que tivemos e como dominamos as vertentes essências da gestão do jardim. Vamos a ela e depois trataremos da rosa (eu encarrego-me dela…) e do cravo (farás tudo o que puderes, cacto…); juntando forças, venceremos!

- Está bem… se é para o nosso bem, se é para chamar a atenção para nós, se é para podermos crescer mais à vontade… Qual é a estratégia… – disse o cacto, que não concluiu a frase.

- Veneno, cacto! Veneno contra veneno… dedal-de-dama tem que ser envenenada! Como ela costuma fazer em relação às intrusas e maliciosas plantas que, noutra estratégia, usamos para desestabilizar o jardim das orquídeas. Veneno agridoce… que a elimine a ela, que adormeça a rosa (a rosa precisa de ser convencida que dedal-de-dama não se portou à altura da sua responsabilidade de protectora da entrada do jardim…), que não chame a atenção imediata do cravo…

(cont.)

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