(continuação)
A açucena ergueu-se feliz e deu de caras com o cacto… Foi sempre muito tolerante com o cacto, estabelecendo-se, entre elas, no dia-a-dia do jardim, uma certa relação de cumplicidade no propósito de manter a «correlação de forças» existente. Talvez porque ambas se assemelhem a «corredores de meio fundo», capazes de sobreviver às adversidades e aos ambientes semi-hostis. Mas a açucena pertence ao jardim das orquídeas pelo que essa relação com o cacto não atenua esse vínculo, antes o evidencia ainda mais. A açucena está sempre vistosa, vestida de vermelho alaranjado ou, às vezes, de branco e rosa. Resiste às intempéries e no mínimo preserva as folhas quando o sol se esconde e a deixa quase sem forças. È sociável e quer o jardim em harmonia. Também quer festa pela saída do jasmim e comprometeu-se com dedal-de-dama em organizá-la. Tinha até a incumbência de solicitar ao cacto e suas ervas daninhas que fizessem séquito e aplaudissem… Aproveitou para lho dizer, perto que estava a data marcada para a celebração de despedida…
- Estás com mau aspecto, cacto! – disse a açucena no momento em que o cacto se empertigou para a deixar virar-se ainda mais para oriente para receber de frente, naquela manhã, os raios solares. Anima-te, pois tenho uma boa notícia: vamos celebrar a saída do jasmim e queremos que saibas isso… dedal-de-dama queria dizer-te isso pessoalmente, mas anda entretida com a imagem, que quer bem vistosa para a festa…
- Então também tu estás envolvida na tramóia, açucena hipócrita… amiga, mas não se importa que façam tudo nas costas cá do cacto, que põe e dispõe na logística do jardim… pois vai e diz à dedal-de-dama que não vai haver festa nenhuma… se quiser fazê-la faça-a como o cravo, a rosa e com quem mais quiser mas não conte comigo, com a erva daninha nem com as flores que não pertencem ao jardim das orquídeas… tu, açucena, tomas o partido que quiseres! – dissertou o cacto visivelmente agastado por só saber do que se estava a passar oficialmente naquele momento.
- Ofensas, não! Então vim eu dar-te conta dum projecto para o bem de todas as plantas, sem excepção, e tu falas em tramóia!? - ripostou a açucena, sem alterar o tom de voz. – Sabias alguma coisa acerca da organização da festa!?
- Pois claro! Então pensas que não me vêm dizer tudo, hem!? Era o que faltava, depois do que dei por este jardim (é verdade que o jardim das orquídeas já existia e serviu-me de inspiração para construir a parte onde se fixaram as plantas novas, as importadas, as que se mudaram de outros jardins, atraídas por mim…) combinaram um evento desses nas minhas costas. Eu sou importante, sabes!? As condições de vida aqui no jardim dependem da minha acção, da minha vontade, das minhas escolhas…
O cacto estava fora de si e, à medida que explodia a cólera acumulada, exibia a espinhosa superfície em atitude bélica, apontando os bicos afiados como lanças prontas a traspassar o inimigo… Suava as estopinhas, parecendo que lhe saiu nos interstícios dos picos a água toda que armazenara nas últimas semanas. E lá foi dizendo que esperava do cravo outra atitude, de maior respeito pela função de guardião de que se orgulhava e que não toleraria tamanha deslealdade, mesmo que tivesse de desonrar, pela desconfiança, quem tão bem o recebera e lhe dera a oportunidade de ser mostrar como zelador do jardim de todos. Mas não deu a entender quem lhe trouxera ao conhecimento o intento da festa nem das plantas que a planeavam. À açucena ficou a convicção de que andara, de planta em planta, a perguntar o que planeava a imatura dedal-de-dama, pensando ser gente. O cacto era assim: se ouvia alhos, queria saber se havia mais e, não havendo, contentava-se com bugalhos… Nunca concluía que o que tinha ouvido estava correcto pois aumentava sempre algo mais da sua imaginação fértil, que funcionava criativamente para criar a ilusão de segurança (o cacto nunca decidira nada em diálogo; quando decidia tinha o prévio apoio da generalidade das ervas daninhas, ou, não o tendo em número suficiente, decidia ameaçando que abandonaria o jardim se não respondessem positivamente ao planos e exigências que estabelecia: ou eu ou o caos! Era assim que se saía normalmente das situações difíceis na gestão dos interesses que lhe foram confiados. Não haveria, no juízo do cacto, quem melhor do que ele pudesse, estando no centro do jardim, evitar a propagação das ervas daninhas para além dos limites que ele próprio estabelecera, segundo critério inicialmente aceites pelos habitantes mais antigos do jardim…
(cont.)
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