Do alto dos seus 82 anos com ideias…
Observar a banalização duma ideia é o que pior que pode
acontecer a quem nela firmou convicções. Banaliza-se para ser criativo ou
simplesmente para dispensar o trabalho de descobrir o caminho que essa ideia já
fez. As ideias moldam-nos, integram a nossa cosmovisão, permitem-nos ler o
mundo, não andar às escuras e saber que rumo seguimos. Se nos maltratam as
ideias (se no-las deturpam ou se no-las servem requentadas, sem vigor, num estádio
anterior àquele em que fomos conquistados por elas ou pretensamente iluminadas
por «novas descobertas» …) ficamos às escuras como se o interruptor «sem mão»
desligasse a luz…
No momento em que atingimos uma certa maturidade não nos
podem vender gato por lebre, nem nos podem convencer de que as nossas ideias
estão erradas sem muito trabalho de análise, reflexão, debate, convencimento…
Não é porque burro velho já não aprende línguas! Não. É que a sabedoria dos
anos desconfia da maturidade de quem ainda não queimou as pestanas… É que as
ideias que nos moldaram a mente, o coração, a relação com os outros têm raízes
profundas, foram testadas, amadurecidas, confrontadas…
Considero infantil, imaturo, arrogante, falta de senso querer
«implantar» uma escola em cima de outra… Uma escola não se muda, pode é
edificar-se outra a partir do que se aprendeu na primeira (se se quer evoluir)
ou com base naquilo que se rejeita ou ignorando o que foi ensinado (então
regride-se ou confunde-se).
Confesso que, para mim, a evolução depende sempre do
aprofundamento do que já se sabe. Não se evolui a partir da ignorância. E evoluir
do que já se sabe pressupõe explicar a quem sabe que pode saber ainda mais sem
desprezar ou banalizar o que aprendeu… Não é a papaguear «noções» vagas sobre o
que já se sabe que se avança; ao contrário, o «papagaio» estiola e a vontade de
ouvi-lo diminui a cada palavra «nova» que usa para banalizar o que já se sabe…
Há um conflito enorme de gerações, hoje, porque os que deviam ler e estudar os «clássicos»
se bastam com noções elementares dum qualquer conceito encontrado no primeiro sítio
que a ponta dos dedos encontra… Esse conflito é patente no palavreado
incongruente de quem tem projecção social em virtude da natural substituição dos
que se vão da lei da vida libertando…
Renasço quando me falam do que sei e me incentivam a
descobrir o que não sei. Fico doente quando me dizem que o sei não é bem assim
porque…pode ser diferente! Sem debate, não é qualquer imaturo, criativo,
ignorante (por muito títulos e funções que invoque…) que «fala mal das minhas
ideias», as desdiz ou ridiculariza… É que aceitar uma ideia não é coisa fácil e
às vezes leva uma vida! Não se destrói um património espiritual papagueando
lérias, mesmo que elas sejam a base científica do doutoramento do papagaio… Mas
só singram os papagaios que conseguem vencer-nos pelo cansaço e pela sua ténue
noção de ridículo: desistimos por causa da nossa sanidade mental e para não
colocarmos em risco tão exigentes escolas que os formou!
A mim, que estou céptico, ajuda-me ouvir pessoas
experientes, que teimam em não sair de cena e aproveitam as oportunidades de
que vão dispondo para dizer coisas simples, mas essenciais ao aprofundamento das
ideias que me sustentam a fé, a alegria, a esperança, o sentido da vida. No
domingo, do alto dos seus 82 anos, recém-completados, o estimado pastor António
Costa Barata, usou um texto do Evangelho de São João para chamara a atenção do
que considero um caminho promissor, que não separa saberes, gerações, níveis de
conhecimento, nem sobrepõe escolas de conhecimento: Apreender completamente as
ideias de Jesus! É um discurso contra a corrente da ignorância instalada e do evangelês das facilidades, das caridades,
das prosperanças, das curas
interiores de doenças que não se sabe o que são, mas é tudo que impede o
sucesso, o bem-estar, o bom viver… É
que o texto é uma frase atribuída pelo evangelista a Maria, mãe de Jesus que
diz para se fazer tudo quanto ele disser. Dizer é ensinar, é transmitir um
pensamento, ideias! As ideias de Jesus! É mais fácil viver (conviver?) com o
evangelho do nosso encantamento (nascimento virginal, milagres, morte injusta,
ressurreição poderosa, garantia do céu azul e repasto eterno) do que com as
ideias de Jesus. Com o que Ele ensinou… Dispenso-me de resumir o sermão, mas
deu muito que pensar, muito que reflectir…sem abalar, diminuir, confundir as
convicções de quem as tem, assentes nessas ideias que Jesus ensinou. Antes, aliciou,
desafiou, alertou para a necessidade de as aprofundar como resposta às questões
do nosso tempo. Proclamar a mensagem cristã sem as ideias de Cristo é a escola
dos que não ouviram as palavras de Maria; é a escola dos papagueadores do bem-estar
da alma que não sabem o que representa em sofrimento e aflição ter ideias e
viver de acordo com elas, não para glória própria, mas em favor dum mundo
melhor, em que se pratica o bem, principalmente entre os que comungam do
ideário de Cristo, e se assume que só Deus merece ser elevado! O incentivo
final pregado resulta sempre quanto temos ideias que aprendemos ouvindo o que Jesus nos
disse: «Sê fiel»! Coroados, sim, se tivermos ideias (essas) e lhes formos fiéis!
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