Meu Caro Elias, ontem, quando conversávamos sobre essas coisas, agora tão modernas, de um homem não se sentir bem na «sua pele», porque se sente mais confortável na «pele de mulher», e vice-versa, não concluímos nada de muito importante senão que cada um, no respeito do que estiver socialmente estabelecido, deve poder fazer as escolhas que quiser - liberdade, liberdade, liberdade... (A questão de saber quem paga levar-nos-ía ao ínicio da conversa e à repetição da mesma argumentação: paga ele/a, pagamos nós...)
E se leres o texto supra, de 1957, vais dizer (tu não dizes, que és pessoa informada, sensata, que lê nas entrelinhas...) que, afinal, em Portugal já se estava muito à frente e nem o Salazar se opunha a uma «mudança de sexo» com recurso ao Hospital público...
Só que não existem registos médicos ou históricos que confirmem essa notícia como verdadeira, sendo altamente provável que se trate de uma «parábola religiosa fictícia» ou de uma interpretação popular distorcida de um caso de intersexualidade.
Na verdade, o contexto social, clínico e legal de Portugal, em maio de 1957, ajuda a explicar por que razão o relato carece de veracidade factual. Em 1957, o Hospital de Santo António (gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Porto) não realizava cirurgias de afirmação de género (mudança de sexo). As primeiras técnicas cirúrgicas modernas deste tipo começavam timidamente a surgir na Europa central (como na Alemanha e em Marrocos), mas em Portugal estas intervenções não eram integradas nos hospitais públicos. Só décadas mais tarde (a partir dos anos 80 e 90) é que o sistema de saúde português começou a enquadrar e a realizar estes procedimentos de forma regulamentada.
Porém, na primeira metade do século XX, surgiam ocasionalmente notícias sobre pessoas que "mudavam de sexo". Na esmagadora maioria das vezes, tratava-se de indivíduos com condições de intersexualidade (antigamente designadas por hermafroditismo).
Nestes casos, bebés que nasciam com genitais ambíguos eram incorretamente registados como raparigas. Ao atingirem a puberdade, devido ao desenvolvimento de características sexuais secundárias masculinas latentes, o erro biológico era detetado. Os indivíduos eram internados para exames diagnósticos e eventuais pequenas correções cirúrgicas, saindo do hospital com a sua verdadeira identidade biológica retificada nos documentos (passando legalmente de mulher a homem). O povo e a imprensa sensacionalista da época descreviam erroneamente o fenómeno como uma "transformação de mulher para homem".
O recorte apresentado está publicado, como sabes, no jornal Novas de Alegria, que utilizava frequentemente uma estrutura narrativa fixa para alcançar o propósito último - falar do Senhor. Assim - O Gancho (A "Notícia"): Começa com um caso insólito, bizarro ou impressionante ("lemos há pouco...") para capturar a atenção imediata do leitor; A Transição Metafórica: Compara a suposta transformação física com a transformação da alma; A Lição Moral: Conclui que a verdadeira mudança que importa é a do pecado para a virtude, algo que "só o Grande Médico, Jesus, pode transformar".
Durante o Estado Novo, a censura impedia a discussão aberta e científica de temas ligados à identidade de género e à sexualidade. Histórias moralistas como esta eram toleradas ou replicadas precisamente porque o desfecho desviava a atenção do fenómeno físico para focar estritamente na mensagem de conversão espiritual cristã.
Ou seja, no caso concreto, a Censura leu nas entrelinhas o sentido do texto (sabia que o hermafroditismo acontecia e que havia meios para fazer a «reparação» ou «opção certa»...) e valorizou mais o objectivo da mensagem: importava era que houvesse pessoas boas! Já não se escreve mensagem evangelísticas tão curtas e com tanto impacto nos leitores!
O abraço do costume,
7 de Junho de 2026.
José Manuel Martins

Sem comentários:
Enviar um comentário