Recordávamos as "últimas voltinhas" que demos e veio a propósito dizer-te que voltei a Rio Tinto. Só porque queria voltar a percorrer a minha rua, entrar na estação do combóio, passar à frente da minha Escola, percorrer um ou outro caminho mais esconso (ah! Não são já os de terra e saibro da meninice: estão empedrados ou asfaltados!), ouvir o correr da água dos ribeirinhos (bem queria, mas ou estão encanados ou o acesso está vedado!), arrancar aqui e ali uma flor do jardim das vizinhas (agora é mais difícil porque perdemos o contacto e pode ser considerado abuso de confiança...), perguntar por alguém que conhecêmos como se o tempo não tivesse passado (dizem-nos logo: Ah, mas já morreu... Olhe, parece que está por aí um neto...), bater a uma porta para saber se o prédio sofreu obras há muito tempo (nem parece o prédio de há 70 anos: telhado novo, portas e janelas com vidro duplo...), enfim, perguntar como se o tempo fosse o mesmo em que se passaram aquelas coisas todas que preenchem a nossa memória da meninice! Alguns respostas soam bem estranhas pois não as expectávamos: «Não sou daqui, comprei a casa ao falecido...»; «Sim, mas não me recordo bem. A minha mâe, que faleceu há 20 anos, é que sabia contar bem a história...»; «Não me diga! É daqui? Bem me lembro dessa senhora, a sua avó...»; «Não, não, esse riacho continua a correr, mas vai encanado, directo ao rio Tinto, ali onde era a represa e também já não existe...»; «Pois, o moinho velho está lá, mas são só umas pedras velhas, mais nada... tudo coberto por silvas e mato... nem aos ninhos já se pode lá ir...».
O mundo é outro, Elias, e só quando estamos perto do asfalto que pisamos descalços, da referência às pessoas que nos marcaram e já morreram, das Escolas requalificadas onde tivemos frio e calor, dos recreios revestidos com materiais fofinhos, em vez do areão onde esfolávamos os joelhoe e os cotovelos nas correrias dos intervalos, nos sanitários modernos, linpinhos, em vez daqueles em que se faziam as necessidades de cócoras e havia por ali «acumulados» semanas a fio, que ninguém se importava, quando percorremos aqueles metros da rua num instante, de carro, quando temos ideia de que a pé, para trás e para diante, o percurso levava uma eternidade...
Como o tempo voou! Mas a rua está lá, o grito da minha maezinha («Vem comer, meu malandro, que são horas!) ainda se ouve, o dos meus amigos de brincadeira («Hoje jogámos à bola no campo da Castanheira...»), o dos foguetes da festa de S. João, o das camionetas que circulavam lentamente (podíamos subir para a parte trazeira, aberta, mexer na mercadoria no início da subida, no café Rival, e saltar antes que parasse à frente da mercearia que ía absatecer...), o dos sílvios agudos dos combóios de mercadorias, a qualquer hora do dia e da noite, que entravam pelos ouvidos para se saberem as horas ou tomar cuidado nas passagens de nível com e sem guarda...
Enfim, lembrámos tantos episódios...
Desta vez, vê só, por mero acaso, encontrei um homem da minha idade, que também fez o serviço militar em Angola, e frequentou comigo a Escola da Fougas, onde os miúdos (curiosamente, só me lembro de rapazes, mas também andariam por lá meninas...) das mães operárias passavam o período do dia em que não tinham esxcola oficial. Fazíamos ali todas as contas de somar, subtrair, multiplicar, dividir... Lembro-me que em algumas ocasiões a Mestra punha um de nós a fazer uma operação de multiplicar que levava a manhá (ou a tarde) a concluir... Um no quadro, todos com a sua lousa e pena e ela, atenta, de cana na mão, a vigiar para que ninguém copiasse. No fim, todos se confrontavam com o resultado do quadro... Saímos dalí eximios a fazer essas operações... Vê que não me lembro de exercícios de ditado, leitura... Mas certamente far-se–iam também...
Ele recordava-se tão bemm quanto eu da cana nas orelas quando não estávamos a colaborar para a harmonia na sala (três bamcos corridos, num quadrado, e a Mestras, sentada numa cadeira sobre um estrado, a fechar o quadrado... Via-nos, um a um, e a cana alcançava todos...
Eu estava (a minha mulher estava comigo) a lembrar que ali, na passagem de nível com guarda, onde vivia uma família, se juntavam muitas crianças (e adultos...) quando algém esperava pelo combóio, num espaço mais descampado, e... punha termo à vida. Sim, as crianças, que chegavam antes da polícia, do regedor, dos bombeiros, andavam por ali a ouvir os adultos esplicar o que acontecera, se era homem, mulher, dali ou doutra zona da freguesia ou mesmo de longe... Viram-nos ali, estranhos, a olhar para a linha, de vários quilómetros a direito (que reta enorme é aquela!) e pararam como quem desconfia que pudessemos estar a aguradar o próximo combóio... Sim, parece que é mais raro, mas ainda aparecem por ali uns descontentes da vida...
Fiquei com o contacto dele para, talvez, voltar a falar sobre a mestra Fougas!
Os demais tópicos das nossas memórias ficam para outra ocasição.
E lembra-te que recordar ajuda a manter o cérebro vivo.
Abraço,
José Manuel Martins
12 de Maio de 2026

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