quinta-feira, 28 de maio de 2026
Sobre estórias contadas...
Meu caro Elias, espero que tudo te vá bem. Com o calor que por aí vai, na tua idade, é preciso ter cautela. Uns mergulhos no mar, antes do meio-dia, faz bem ao corpo e anima a alma...
Tínhamos conversado sobre o valor das histórias que lêmos ou nos contaram há muito tempo. Cada um de nós tem as da sua preferência, bem sei. Quando se trata daquelas que nos sustentam a fé nem se nota o que nos distingue. Algumas sabê-mo-las pela rama, sem pormenores. Uma dessas, que encontrei por mero acaso, sob o título »VITORIAS DA GRAÇA DE DEUS» refere-se ao «martírio cristão». Pelo menos foi-nos apresentada como exemplo flagrante de alguém ter dado a vida por causa do testemunho cristão. Trancrevo-a, com uns ajuste na pontuação, de Novas de Alegria, Ano V, nº 49, Janeiro de 1947, pág. 8: Não há coisa mais maravilhosa do que o Evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo. Existe, no coração da Africa, um país que, há um tempo equivalente a duas gerações, vivia em barbarismo, mas que agora é um modelo de ordem e progresso cultural. Chama-se Uganda. Muitos brancos têm dado as suas vidas como mártires no trabalho penoso do Evangelho, para que pais fosse aberto para Cristo, e para todas as bênçãos que o verdadeiro cristianismo tem consigo. Um deles foi o pastor Hannington, que há precisamente 60 anos foi morto perto da fronteira pelo mandado dum soba de Uganda, mesmo antes de ter passado a fronteira. Uns 30 anos mais tarde, um destes assassinos foi baptizado pelo filho de Hannington, então missionário. O assassino nunca esquecera a impressão que aquele pastor deixou na sua mente.
A história, contada assim, não revela as razões directas da execução. Em 1947, quando o texto foi publicado, já se sabia muito mais do que se disse sobre as circunstância desse desfecho,. Assim, o referido missionário é o bispo James Hannington, morto em 1885, tornando-se o primeiro mártir cristão daquela região. Os pormenores históricos sobre a sua vida, a sua rota fatal e a sua execução revelam um misto de zelo religioso, tensões políticas coloniais e extrema brutalidade. Ele nasceu em 1847 em Sussex, Inglaterra, no seio de uma família abastada proprietária de armazéns. Na juventude, perdeu o polegar num acidente com pólvora negra. Era conhecido pelo seu perfil atlético, humor e gosto pela aventura e colecionismo de espécimes naturais. Ordenado em 1874, voluntariou-se para a Church Missionary Society (CMS) após saber do assassinato de dois missionários na África Oriental. Em 1882, viajou para a região do Lago Vitória, mas contraiu malária e disenteria graves, sendo forçado a regressar à Europa quase à beira da morte. Já recuperado, foi consagrado em 1884 como o primeiro Bispo da África Oriental Equatorial. Ao regressar a África em 1885, Hannington decidiu traçar uma nova rota terrestre mais curta e saudável, partindo de Mombaça (Quénia) em direção ao Uganda, contornando o norte do Lago Vitória. O bispo ignorou os avisos de que aquela rota atravessava a região de Busoga, considerada pelo reino de Buganda como a "porta das traseiras" do seu território. Na tradição local, qualquer estrangeiro que entrasse por aquele flanco era visto como um invasor com más intenções. Para agravar a situação, o avanço do imperialismo alemão na costa africana deixou o jovem rei de Buganda, o Kabaka Mwanga II, profundamente paranoico e desconfiado das intenções europeias. Hannington e a sua caravana de carregadores africanos foram intercetados em Busoga pelos guerreiros do chefe local Luba, sob as ordens do rei Mwanga. O bispo permaneceu em cativeiro durante cerca de oito dias, sofrendo privações e agressões brutais. Ele foi forçado a subir uma rocha escorregadia coberta de algas (hoje conhecida localmente como a "pedra da tortura") e arrastado violentamente. Os detalhes do seu sofrimento são conhecidos porque Hannington manteve um diário de bolso até aos seus últimos momentos. Num dos relatos, escreveu que, enquanto era arrastado, cantava hinos para suportar a agonia. O diário foi mais tarde comprado por uma expedição britânica a um habitante local. No dia 29 de outubro de 1885, com apenas 38 anos, o Bispo Hannington e cerca de 48 dos seus carregadores foram levados para perto de uma zona pantanosa e assassinados à paulada e à lançada. Pouco antes de ser morto, Hannington proferiu uma frase que ficou célebre na história das missões: "Ide e dizei ao Mwanga que comprei a estrada para o Uganda com o meu próprio sangue."
Inicialmente enterrado em segredo no local, dois carregadores sobreviventes conseguiram recuperar e preservar os seus restos mortais através de um processo de fumagem. Em 1892, os ossos foram entregues ao bispo Alfred Tucker e sepultados na Catedral de Namirembe, em Kampala, onde repousam até hoje. A morte de Hannington desencadeou uma onda de violência contra os convertidos locais. Joseph Mukasa, um funcionário católico da corte que criticou o rei pelo assassinato do bispo, foi decapitado. Nos meses seguintes, dezenas de jovens páginas reais (católicos e anglicanos) foram queimados vivos, no episódio histórico conhecido como os Mártires do Uganda. Em vez de erradicar o Cristianismo, as execuções fortaleceram a presença da Igreja na região. O dia 29 de outubro é recordado no calendário litúrgico anglicano e episcopal, e o Local do Memorial do Bispo Hannington em Kyando (Uganda) atrai milhares de peregrinos anualmente.
Ou seja, parece que houve, ali, uma manifesta «leitura política» da atitude do bispo, apresentado como o primeiro mártir cristão. A causa directa da sua injustificada prisão, maus-tratos e morte. A história contada, no trecho de NA, tem uma segunda parte: a de um dos executores ter encontrado a salvação através do ministério missionário do filho do bispo anglicano martirizado.
Falaremos dela numa outra ocasição.
E vive , todos os dias, as vitórias da graça de Deus.
Com a estima de sempre
PS: A recolha dos elementos históricos desta carta foi feita com recurso à IA. Pode haver lapsos ou erros..
José Manuel Martins
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