terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Fruto da velhice, não fruto velho!

«Na velhice ainda darão frutos; serão viçosos e vigorosos, para anunciar que o Senhor é recto. Ele é a minha rocha e nele não há injustiça».


Gosto deste trecho do poema!
É a poesia da perenidade dos justos, que exalta a submissão dos homens bons à vontade do Senhor. Só os poetas antecipam, tão convictamente, o futuro ou o que ainda está encoberto aos olhos daqueles a quem Deus aumentou a força «como a dum búfalo»...
Nós só veremos, as mais das vezes, o que os poetas antecipam se chegarmos ao futuro que eles vislumbraram.
Domingo, dia 4, vi a «velhice» viçosa, empolgada, vigorosa em frutos maduros de saber e experiência. Os frutos maduros reconhecem-se pela cor, tonalidade, odor, textura: sabe-se, a olho nu, quando estão maduros, comestíveis, saborosos... São daqueles frutos que comemos e lamentamos não poder partilhar pelo mundo inteiro...
Não foi um sermão clássico, estruturado, com intróito, explanação e conclusão. Não foi.
Foi uma experiência de vida, de saber, de convicção. Como se começou, como se aprendeu, de quem se aprendeu, como se solidificou o conhecimento e se traduziu em partilha, serviço a Deus na pessoa do outro, do próximo, amigo, adversário, inimigo...
«Vinde e vede», foi o convite que o chamou à novidade, ao conhecimento, à experiência. 
«A água transformada em vinho» foi o estímulo à mudança, à conversão, aos novos rumos, às novas expectativas, a esperança.
«Quem não nascer de novo» como condição de acesso ao reino de Deus, como matriz distintiva da mera adesão à religião, à filosofia, aos saberes, como início de percurso, com a mira direccionada;
«Aquele que beber desta água» como abraço inclusivo, o bem comum indispensável sem distinção,
para todos, sem credos, religiões, barreiras, raças, história, política, estatuto social ou condição moral.
«Os irmãos não criam nele», achavam-no louco, fora do comum, fora do tempo, visionário, não lhe anteviam futuro na família, destinado ao fracasso... «A voz do povo» incrédula que rejeita quem testemunha da sua vida nova, renascida pela fé; 
«Nem eu te condeno», a prática da misericórdia, a benevolência, os votos de sucesso futuro, no que falta viver, o reconhecimento da universalidade do mal, do pecado, da desobediência.
«Lavei-me e puder ver» em obediência à ordem de «vai aos tanque de Siloé, e lava-te», dada por aquele que disse que não há necessária e obrigatória relação entre a doença, a incapacidade física e a culpa própria ou alheia, pode ser que aconteça para se ver as obras de Deus.
«Eu sou o bom pastor», guardador, disponível, capaz de dar a vida...

Os de nós mais familiarizados com a leitura dos Evangelhos facilmente concluirão que se trata dum «quase roteiro» pelos temas principais dos primeiros 10 capítulos de S. João. Pois foi esse caminho directo, encurtado das retóricas, prenhe de testemunho pessoal, familiar, comunitário que percorremos na prelecção de António Costa Barata, o que foi salutar, motivador, libertador, promissor...

Fruto saboroso da velhice, não fruto velho!

José Manuel Martins

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