Suponho que o tema já tenha sido abordado aqui, no nosso Largo.[1] Não me lembro e também não vou confirmar. De qualquer modo e com a vossa permissão vou abordá-lo a propósito do testemunho de Esther Tusquets, entrevistada pelo Expresso a pretexto da apresentação do seu romance "Bingo!".
P. "Bingo!" é também uma reflexão sobre a velhice, sobre o processo de envelhecer...
R. Sim, sim. Este é o começo do meu interesse literário pelo tema da velhice. As pessoas querem viver, viver, viver cada vez mais. E não sei bem para quê, porque a vida já é suficientemente grande, há tempo para fazer muita coisa. Por outro lado, a velhice é uma coisa sinistra.
P. Sinistra?
R. Sinistra, sim, Sabes que cada dia ficarás pior do que no dia anterior, E aos amigos, a partir de certo momento, só os encontras nos funerais. É claro que também há coisas pelas quais vale a pena viver, mas não tenho vontade de ficar por cá até aos 100 anos. Parece-me uma ideia absurda».
Observei-lhe que, há pouco tempo, tinha assumido o patrocínio duma senhora que, aos 104 anos, herdara a fortuna dum sobrinho de 72... Casos como este são raros: 104 anos, relativa boa saúde, cabeça no lugar, capaz de compreender o fenómeno que lhe caiu nos braços... «Agora ainda são raros, mas em breve isso vai ser muito comum... Viver 150 anos vai ser coisa generalizada...».
Por agora, o que eu vejo é que, em regra, quem chega aos oitenta, «o melhor deles é canseira e enfado»... Ontem fui estar com a minha sogra, que tem 86... Só vi enfado e canseira, nela e nos que gravitam à volta dela, naquele universo de velhos e velhas... Os que vivem velhices activas, úteis, felizes, são poucos e, em regra, são aqueles que a natureza dotou de especial robustez, não os que andam de pé à custa da ciência e dos químicos que ela inventou (quanto mais dura o consumidor, mas ganha o produtor... e os prestadores de serviços associados, que garantem a melhor qualidade de vida aos cansados e enfadados...).
É mesmo uma ideia absurda perpetuar o enfado e a canseira! O ideal é que cada um morra «em boa velhice, velho e cheio de dias», como aconteceu ao patriarca Abraão... que chegou aos 185 sem recurso aos químicos.
Compreende-se o «absurdo» da velhice até aos 100, sustentado pela escritora, diante do «enfado e canseira» dos velhos, ou seja, são eles, pela sua postura, que declaram penosos os dias da sua existência...
Nesse estado, precisam de amor, não de «experimentação científica» …
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