domingo, 23 de agosto de 2009

28 anos depois

Trazia no pensamento uma ideia há muito tempo feita, mas não havia meio de a executar. Umas vezes por isto, outras por aquilo, as diligências que se justificava fazer iam passando para a folha da agenda do dia seguinte. Escrevera uma carta e ela viera devolvida com a indicação «deixou de morar aqui há muito tempo». Desapontado fiquei eu. Desde que recebi devolvida essa correspondência o assunto estava em agenda. Revolveria o mundo para encontrar o destinatário. Decidi começar a procurar. Lista branca, lista amarela, números de telefone por nome, morada… Ah! Lembrei-me que o meu amigo é tenente-coronel da Força Aérea… mas está aposentado… lá na tropa não se saberia do paradeiro dele…? Ou saber-se-ia? Ocorreu-me que tenho um amigo que mexe com essa coisa do pagamento das pensões dos militares. Deve saber a morada dele, se está vivo ou morto…Bem, não queria más notícias, só o endereço actual para lhe mandar um convite para participar num convívio de amigos que se conhecem há 40 anos ou mais, que confraternizam e partilharam as vivências da fé cristã comum por terras de África – em Luanda, Nova Lisboa, Luso, Serpa Pinto, Gabela, Porto Amboim, Lobito… eu sei lá, por onde havia uma comunidade cristã evangélica, na cidade ou no mato, nos bairros centrais ou periféricos, formada por gente autóctone ou proveniente de quantos cantos de Portugal mandaram gente para trabalhar ou fazer a paz… ou a guerra? Não sei…

Liguei o número de telefone antigo. Pensei: «Não vai responder…». Surpresa! Lá estava o velho amigo, que não deixara a casa coisa nenhuma; o calaceiro do carteiro não quis introduzir a carta no receptáculo, foi o que foi. Não há outra explicação para a devolução da correspondência. Ultimamente acontece muito isso. As cartas são devolvidas à procedência por ser mais fácil dizer «desconhecido» e devolver do que aguardar que abram a porta para depositar a carta… Congratulei-me. É bom sabermos onde param os nossos amigos, mesmo que, distantes, não possamos, diariamente, cumprimentá-los, estar ao seu lado, dar-lhes o nosso ombro, pedindo-lhes o deles.

O tempo passa e deixa as suas marcas, no corpo, na alma, no espírito. Era este meu amigo um jovem tenente da Força Aérea quando o conheci. Dinâmico, solícito, trabalhador, jovial, responsável, encorajador, solidário… um homem que me inspirava os 18 anos, em que via traços de carácter que gostaria de ter, de desenvolver. Não posso precisar quantos anos convivemos. Afinal ele era militar em comissão em Angola e eu, entretanto, fui mobilizado para o exército e andei pelo mato dois anos… Desses dois anos as memórias que preservo são indeléveis, mas muito selectivas: quase todas se referem a episódios da vida militar, directa ou indirectamente. Lembro-me que o meu amigo (entretanto promovido a capitão) ter ido ter comigo ao Regimento de Infantaria 20, em Luanda, aí pelo mês de Outubro de 1971, para velar pela minha condição física, pois a recruta era muito exigente, mas também pela minha condição face ao RDM, pois com as minhas habilitações académicas muitos frequentavam o Curso de Oficiais Milicianos. Foi tardia a intervenção para o futuro militar, mas valeu a solidariedade que demonstrou. Não me lembro se nos voltamos a ver em Luanda. Sinceramente, os anos de 1972-1974 vivi-os afastado do meu meio social habitual, dos meus amigos.

Não referi ainda, mas o meu amigo estava em Luanda com a família, a mulher e dois garotos, ainda de terra idade (9 e 4 anos?). Ela tinha pouca saúde, não se teria habituado ao clima duro de África. Mas estava disponível para ensinar as crianças e adolescentes. Fiz parceria com ela e «encenámos» peças, «coreografámos» ambientes, apresentamos programas de ensino bíblico. Ela, que podia ser minha mãe (a diferença de idades andaria aí pelos 20 anos…), ali disponível para ajudar, para inspirar a nossa comunidade cristã. Não me lembro quando a vi pela última vez! Não me lembro de ter falado com ela depois de se ter ausentado de Luanda. O meu amigo, seu marido, sim, encontrei-o em Lisboa. A convite dele, almoçamos no aeroporto militar, em Lisboa, talvez em 1975 ou 1976. Não me lembro de o ter encontrado depois desse almoço…
Ontem atendeu-me o telefone. Não foi ainda o momento para recordar esses tempos tão importantes para mim. Foi mais para saber acerca do estado de saúde de ambos e para os convidar para um Convívio que vamos realizar em Outubro… O anos passam sem nos darmos conta. Ela aproveitou para me dar os parabéns por um facto que ocorreu em 31 de Outubro de 1981 (nesse dia conclui a minha licenciatura em Direito na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa) … Agradeci-lhe e lembrei-lhe que isso ocorrera vai fazer 28 anos! «Pois é! Como o tempo passa», disse ela, mas feliz por, apesar de tardio, me dar esse «presente», de se congratular com o meu desempenho, com a minha determinação.

Ainda nos vamos encontrar, se Deus quiser! Fica combinado que trocaremos memórias em 10 de Outubro de 2009, quando realizarmos o 2º Convívio Nacional. Assim Deus nos dê saúde e vontade de participar. Entre Laços d’Ontem fala desses sentimentos positivos em relação ao passado, das emoções que a memória proporciona em relação a factos e atitudes que se constituíram referências para o caminho entretanto percorrido e para o futuro, que é hoje. Pode o corpo estar débil, próximo do declínio; mas temos que cuidar do que é mais importante, o que nos uniu durante um período específico da vida: a fé que partilhámos e que nos alimentou a esperança. É mais para isso que queremos estar juntos.

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