sábado, 23 de maio de 2009

Só visto...

Não é sério limitar a acção de quem quer que seja apenas por causa do seu passado. O que cada um fez, disse ou pensou faz parte do seu percurso de vida, mas nem tudo o que disse, fez ou pensou tem potencial para limitar o que faz, diz ou pensa. As pessoas mudam!´«Só não mudam os burros», disse uma vez, a propósito duma contradição de ideias que lhe denunciaram, Mário Soares, dirigente partidário, Primeiro-ministro e Chefe de Estado. E podem mudar em muitos capítulos das suas vidas. Podem mudar o discurso, pondo-o ao serviço de ideias diferentes, quiçá novas; podem mudar a acção, desenvolvendo programas com vista a objectivos distintos; podem filosofar acerca da vida, do futuro, de tudo partindo de pressupostos incompatíveis com os anteriores que lhes nortearam o pensamento. Mudar de vida é tão expectável que não deveria constituir surpresa para ninguém. Às vezes, a mudança implica uma radical substituição de valores éticos e morais; aliás, só se muda porque se mudam as «âncoras», os suportes em que se sustentou a vida antiga...


Surpreendeu-nos que se tenham surpreendido aqueles que «exclamaram» estranheza por Melissa Scott ser agora pastora da University Cathedral quando antes fora actriz de filmes pornográficos e posara nua para revistas masculinas. Exclamaram: «Só visto!». Parece que não são conhecidos exemplos suficientes de pessoas que roubavam e mudaram, passando a viver do seu trabalho e a respeitar o património alheio; parece que não se viu, reiteradamente, pessoas dadas à violência, passando a viver de forma pacífica e socialmente integrada; parece que nunca se viu o burlão mudar de vida e passar a agir como pessoa honesta; parece que jamais se soube de pessoas mentirosas que passaram a conviver com base na verdade.... Enfim, parece que se desconhece que as pessoas podem e, em muitas situações, devem mudar!

Então, se é assim, onde está a estranheza, o«escândalo»!? Só porque uma mulher deixou a pornografia, deixou de se expor nua como modo de vida, quiçá como único meio de se afirmar socialmente (às vezes, a afirmação ocorre através da marginalidade, da excepcionalidade, da excentricidade...) e passou a ser pastora, já se não tolera a mudança!? Bem, se fosse assim, automaticamente, sem verificação pública da mudança, seria estranha a mudança «funcional»; mas a notícia diz porquê: a actriz de filmes pornográficos «resolveu virar-se para Deus» e, mais tarde, casar-se com um pastor duma igreja. Fica óbvio, assim, que há matrizes suficientes para atestar a mudança de valores, de atitude, de sentido de vida, de afectos, de responsabilidade. A razão da mudança ocorrida «ontem» está em Deus, para quem se virou. Digamos que o sentido da sua vida se inverteu: antes, de costas para Deus, era actriz pornográfica (a pornografia é um desvalor social, embora compatível com o modo de vida de muitas pessoas...); agora, de frente para Deus, adopta uma atitude serviço, de ajuda, de disponibilidade para os outros (pastor é o que serve o rebanho, cuidando dele, liderando-o, alimentando-o... não o seu dono, o seu chefe, o seu «boss»...).
Se ela mudou, o passado não pode aprisioná-la; quando mudamos, o passado apenas sinaliza o que fomos, não o que somos, nem o que queremos ser. Pelo critério desses que exclamam »Só Visto!», confrontados com situações de mudança, a História não teria sido o que foi, hoje não teríamos as referências morais que temos, os líderes não seriam o que são, tudo estaria prisioneiro do passado que cada um teve. Nem os pobres podiam enriquecer, nem os ricos empobrecer, nem os ladrões fazer filantropia, nem os assassínos conviver sem limitações, nem os pecadores se tornar filhos de Deus... Paulo (vem a apropósito por causas das comemorações do ano paulino) não seria São Paulo pois queria ver os inimigos da sua religião mortos aos seus pés...
Pode-se mudar! Pode-se deixar a senda onde se andaram muitas léguas, onde se fez o que hoje é vergonhoso... A grande aventura da mudança acontece quando se muda de atitude: virar-se para Deus! O passado (esse, o profissional porno, nu, roubo, burlão, mentiroso...) fica relegado para as profundezas do mar, apagado, sem lembrança, porque esse passado não conta para construir o que ainda falta depois da mudança operada. O passado apagado não é elo de ligação com o presente; não existe, por isso não conta. Não conta para a actriz porno que assumiu o pastorado, não conta para quem se deixou perdoar e aceitou que a «cédula» do passado fosse apagada. Os laços que perduram d'Ontem são os da recordação do momento em que a mudança ocorreu. Só esses contam.

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