quinta-feira, 14 de maio de 2009

Estava a pensar em...

A nossa memória é fabulosa, mas precisa de estímulos! Entendo que ela deve funcionar, em primeira linha, para relevar o que positivamente nos marcou, que nos fez ser o que somos, o que cremos, o que ainda sonhamos. Ontem foi um dia especial. Por esse mundo fora há memórias de vida extraordinárias, algumas das quais têm de facto o mérito de nos transportar para lugares distantes, onde nascemos, onde crescemos, onde nos fizemos homens e mulheres. Não se trata de ressuscitar o que está morto e enterrado: o que se pretende é reviver o que nunca morreu e está vivo, presente, valorizado nos nossos corações!

Relacionamos dois factos, neste contexto recordatório, que se pretende com os laços d'Ontem: um amigo (amigo no sentido de que partilhamos emoções, saberes... não necessariamente amigo de convívio próximo, de partilha da mesa, da fé, das dificuldades...), que vive e trabalha no Canadá (terra da sua opção depois da retirada da terra da sua naturalidade, a Angola dos nossos corações), dedicou-se, anos a fio, a recolher fotografias e postais ilustrados da sua terra, de Angola de Cabinda ao Cunene, relativas a mais de um século de vida! É obra louvável, fruto do seu labor das horas de descanso. Amavelmente enviou-me, a expensas suas, um CD com cerca de 12.500 fotografias! Só visionei umas centenas, relativas às cidades e vilas que mais me tocam, ainda hoje, pelo significado que cada uma delas tem no meu percurso d'Ontem. «Andei» pelo Ambriz dos anos cinquenta, sessenta e setenta, 2005... (pessoalmente «vivi» no Ambriz cerca de um ano: de Abril de 1972 a Fevereiro de 1973) e fiquei impressionado com o mar, a foz do Loge, as salinas, os espaços físicos em que gastei esse tempo (foi preciosa a experiência no Ambriz: li como nunca tinha lido!) da minha juventude. «Andei» por Ambrizete, onde me senti um estranho no ambiente que por lá se vê: decadência, decadência... Até a baía está triste, desconsiderada e só os barquito de pesca artesanal lhe dão o sentido que outrora também tinha... Em Ambrizete, do que me lembro, dormi pela primeira vez num Hotel, com ar condicionado...

«Andei» por Luanda, pelas ruas todas que amiúde percorri durante dez anos! Não vou contar a experiência porque ainda ´só visionei umas centenas de fotografias e postais ilustrados... Noutra ocasião, quem sabe, «chorarei» aqui todas as «lágrimas da saudade» (à boa maneira portuguesa...), todas as emoções da recordação... Mas retive as imagens do Bairro da Terra Nova, ainda em formação, com as suas ruas feita a régua e esquadro, moderno, ainda empoeirado por falta de asfalto. Porquê? Porque lá morou o meu amigo Marcelino Freitas de Oliveira, homem generoso, cristão fervoroso (fraco também, como eu, como nós...), amigo da vida, feliz no relacionamento com os outros, meu «pai»... Vi o Bairro, vi a Rua, via a vida feliz, promissora do Marcelino e sua família (a prole já contava com 4 filhos...). E vi isso em particular por que na passado dia 10 deste mês fez 75 anos e vai ser submetido a uma operação cirúrgica que lhe devolverá a dinâmica, a ligeireza de pés, a voz sonante, o sentido da vida... O coração está fraco porque não lhe chega o sangue suficiente. Desentupida a veia (ou a artéria?) vai ficar novo!

Da Terra Nova à Nova Terra (a Jerusalém celeste da nossa esperança...) vai um pulo, um pouco de tempo. Antes que que saltemos, antes que o tempo que falta decorra, ao meu amigo não vão faltar oportunidades (muitas, muitas...) para relembrar, como eu relembrei, a cor do pó da Terra Nova, os cânticos que entoámos por ali, as festas que celebrámos... São os laços que nos atam, que ainda nos amarram aos valores que conquistámos e que não se perderam. Que viva, com muita saúde, por muitos mais anos (todos quantos Deus quiser) o homem que tanto plantou as sementes do muito que hoje perdura no catálogo dos valores que asseguram o meu futuro!

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