domingo, 9 de fevereiro de 2025
Sorte da caturra...
A propósito duma caturra...
Um dia, um homem, que vivia só, sucumbiu à mesa de um café, no aeroporto de Lisboa.
Biólogo, músico, um intelectual...
Foi enterrado sem que se soubesse se tinha ou não família.
Soube-se, mais tarde, que, quando estava em casa (aliás, um antro de sujidade, desde que a cabeça dele se destrambelhou...), tinha a companhia de duas aves...
O senhorio despejou a casa, por falta de pagamento da renda mensal, por meio de arrombamento. Lá estavam o Solicitador de Execução, o serralheiro, o Sub-chefe da polícia da esquadra local, com dois agentes... (não sabiam se o inquilino estava dentro de casa; podia haver resistência... ihihih). No meio do lixo, das centenas de livros (muitas dezenas novos, nunca lidos...) de filosofia, psicologia, ciências sociais em geral, religião (judaísmo, islamismo, cristianismo...), dos móveis, do cofre, das jóias... ainda havia vida. Não, não era o dono da casa, que tinha morrido e não se sabia, nem mesmo os que tomavam, agora, a casa de «assalto» tinha ideia disso. Esse vivera sozinho e estava enterrado... Havia uma «arara» viva, cujas companheira não resistira, provavelmente à fome, à sede ou à...saudade! Foram abandonadas pelo dono que saíra e não voltara... Foi logo «transportada para o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade»... Sorte dela porque aquela equipa de «arrobamento» tinha sensibilidade. Sorte dela porque o respectivo director se empenhou, pessoalmente, em recuperá-la e garantir-lhe bem estar... Sorte dela porque, 6 meses após a morte do seu dono, os familiares (herdeiros!) se interessaram por ela e a primeira coisa que fizeram foi recuperá-la para ser companhia lá em casa...
Afinal não era uma ARARA. Tratava-se duma ave «vulgarmente conhecida por caturra», da espécie «Nymphicus hollandius».
E pronto, estava garantido o futuro da CATURRA como «dama de companhia»... Mas o dono morreu sozinho, sem cuidados, ao abandono... Até na morte lhe faltaram os amigos, conhecidos e os que seriam, legalmente, seus herdeiros...
Sorte da Caturra! Há crianças que deixamos morrer...
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