sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

54 anos depois...

Caro Elias,

Não dispensamos as recordações, em particular das situações da vida que deixaram marca indelével.

Temos recordado tantas, tuas e minhas, vá lá, coisas que nos entrelaçam e alimentam a amizade que nos dá à vontade para todas as conversa.

Pois bem, fez-se hoje uma luzinha na minha cabeça, depois de termos conversado tanto sobre os lugares por onde passamos e nos marcaram.

Não me ocorreu, durante a conversa, que faz hoje, precisamente, 54 anos que, de malas aviadas, regressei a Luanda.

Bem sei que és mestre nas coisas referentes às linhas férreas que se construiram em Angola, em particular aquela que, vindo da costa atlântica, se embranhava nas profundezas do território, atés a fronteira, a leste. Eu via os comboios passar em Novas Lisboa, mas a história da linha interessava-te mais do que a mim... Eu ficava por ali a vê-los passar, carregados de mercadorias e gente... Tu sabias tudo acerca de cada composição que, no sentido da fronteira ou do mar, parava na capital de Norton de Matos.

Mas sobre conboios estamos conversados porque me falta cultura. Mas a memória do resto, em Nova Lisboa, ainda está viva e disso falamos tanto... 

Uma ocasião, estando aborrecido com o «clima» social na capital, decidi mudar de ares e trabalho. Pequei na minha Lambretta e, zás, quase um dia inteiro, fiz-me à estrada para Nova Lisboa. Estamos no fim de Julho de 1970. Tu chegaste depois e conheces os pormenores da aventura. Não te maço, repetindo-os. Lá na pensão, que escolheste por sugestão minha - afinal, foi lá que me alojei uma semana após ter posto os és na cidade... - falámos tantas vezes da ousadia que foi percorrer aqueles 600 quilómetros sem preparação prévia... Nem bagagem, nem sítio onde dormir... Tudo o que os 20 anos justificavam de aventura e irresponsabilidade!

7 Meses depois, foi diferente! O avião e a carreira de transporte de passageiros e mercadorias facilitaram muito o retor... Tu ficaste para cumprir a tua recruta e especialidade militar. Eu regressei antes que o serviço militar que apanhasse. Apanhou-me em Julho de 1971, mas nos meses de Março e Julho vivi das economias dos meses de trabalho na capital do planalto e foi tudo muito bom! Ainda não tinha apreciado, como nesses meses, o burburinho luandense...

Tu bem querias frui-lo, mas em Nova Lisboa podias continuar a contar comboios, a sublinhar no teu diário as particularidades das merdacorias e as muitas cores de que se vestiam aquelas gentes que vinham da fronteira para ver o... mar!

Deixei nesse dia 28 de Fevereiro de 1971 parte de mim no café com vista para o jardim, onde o ribombar dos trovões nos dias tempestade me tiravam da atenção do que estava a estudar...  Nem os apitos do comboio que descia se ouviam, mas tu sabias que o rimbombar dos trovões era passageiro e logo mais subiria outro para abraçar a fronteira, que nem sabíamos onde ficava...

E nunca mais voltamos e tu, em dado dia, disseste-me que os comboios tinham parado e, portanto, não voltarias ao planalto...

E agora que os comboios voltaram a circular, regressavas?

Fica para a conversa que a breve trecho teremos.

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário