quarta-feira, 16 de setembro de 2026
E se Deus...
Elias, meu caro amigo,
Estive a reflectir sobre o caso que me contaste.
De facto, lidar com as frustrações não é nada fácil; mais ainda quando se trata de alguém que nos habituamos a respeitar pela sua postura de sensatez nas coisas normais da vida. No desespero, agarramo-nos a tudo e se nos dizem, no momento que se espera socorro, em estado de desespero, que se pedirmos a Deus em tudo concede... Ainda bem que encontrou na tua ajuda e esclarecimento o apoio necessário para restabecer o equilibrio emocional. Louvo-te por esse esforço!
Se te lembras, disse que ia de algum modo sintetizar o que conversámos para ficar um registo que ambos relacionamos com uma situação e pessoa concretas.
Então aqui fica o registo:
Começo com uma pergunta muito honesta, daquelas que raramente fazemos em voz alta, mas que ecoam com frequência no silêncio do nosso coração: E se Deus não der o que lhe pedimos?
Tu sentiste alguma vez que a tua oração bateu no tecto e voltou para trás? Já tiveste aquela sensação de que usaste as palavras certas, choraste, jejuaste, pediste "em nome de Jesus", mas o silêncio foi a única resposta?
Sim... foi o que disseste e eu corroborei!
Imaginei a situação de os nossos netos nos pedirem uma faca afiada para brincar... Dá-la-iamos só porque pediram com insistência e em nome dos pais deles, que são a autoridade que recenhecem? Será que, às vezes, não estamos a pedir "facas afiadas" a Deus para o nosso próprio dano? Mas o nosso convencimento é que pedimos o que nos faz falta e, depois, sentimo-nos tentados a zangarmo-nos com Deus porque milagre que pedimos - quando pedimos a Deus pedimos um milgare... - não aconteceu da forma como foi planeado por nós?
Li de novo o Evangelho de João, capítulo 14, versículos 13 e 14, em que Jesus afirma : «E hei-de conceder tudo o que pedirem em meu nome para que o Pai seja glorificado no Filho. Por isso, hei-de fazer tudo o que me pedirem».
Como concluímos, na altura, este texto é um dos mais invocados quando os crentes enfrentam aflições. Mas é também aquele que, quando é treslido — ou seja, lido às avessas, interpretado de forma errada ou isolado do seu contexto —, mais desilusões acarreta. Uma má leitura desta promessa tem empurrado homens e mulheres para o terreno da insatisfação, da zanga e do afastamento de Deus, da igreja. São pessoas que, na expressão popular, "pediram a Lua a Jesus" e, porque não a receberam na mão, na hora, passaram num instante da total fé para a total incredulidade.
Meu caro Elias, deixemos de lado a erudição pessoal e debates teológicos complexos. Afastemo-nos de retóricas que usam e abusam do texto para justificar aquilo que ele, no seu contexto real, não admite. A vontade que temos é, sim, de sublinhar que a Palavra de Deus nos proporcione uma leitura nova para esta reflexão - uma palavra viva que responda às nossas ansiedades físicas, morais e espirituais, mas que nos devolva a paz ao compreendermos o que Jesus realmente quis dizer quando prometeu: «Hei-de fazer tudo o que me pedirem». Vamos, ambos, procurar o melhor entendimento no contexto do referido trecho do Evangelho.
Para compreendermos o que significa pedir em nome de Jesus, precisamos de olhar para onde Ele estava e com quem falava. Jesus não estava a emitir um "cheque em branco" para a realização de caprichos pessoais. Ele estava num momento de despedida, instruindo os seus discípulos antes de ir para a cruz. Jesus estava numa missão específica em nome do Pai, e o seu grande objetivo era dar a conhecer o Pai. No versículo seis deste mesmo capítulo, Jesus diz: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim». Portanto, todas as obras que o Pai realizava por meio de Jesus (v. 10) e todas as palavras que Ele falava tinham um propósito claro: revelar o Caminho aos discípulos para que eles, mais tarde, o revelassem ao mundo inteiro.
É neste cenário de envio e de missão que surge o versículo 12, onde Jesus faz uma promessa extraordinária: a de que aquele que n’Ele crê fará obras ainda maiores. E repara na solenidade que Ele usa: «Na verdade, na verdade vos digo...». Esta expressão, exclusiva do Evangelho de João, funciona como um juramento de autoridade máxima. Na tradição judaica, o "Ámen" (ou "Em verdade") era dito no fim de uma frase. Jesus coloca-o no início, e duplica-o, para garantir a certeza absoluta do cumprimento da promessa. Ele demonstra que a autoridade emana d’Ele próprio, afirmando a sua divindade.
Mas porquê "obras maiores"? Não se trata de milagres mais espetaculares ou de maior poder do que os de Cristo, mas sim dos efeitos espirituais e da amplitude da pregação após o Pentecostes, que alcançaria os gentios e as nações. E para que os discípulos pudessem cumprir essa missão de expandir o Reino, Jesus garante: «Hei-de conceder tudo o que pedirem em meu nome». E aqui está a chave que muitos ignoram: «...para que o Pai seja glorificado no Filho» (v. 13).
Ou seja, como admitimos na nossa conversa, pedir em nome de Jesus significa pedir em total conformidade com a sua missão, com o seu carácter e com o propósito de glorificar Deus. Significa pedir o que o próprio Jesus pediria se estivesse no nosso lugar.
Além disso, esta promessa exige um compromisso prévio, que funciona como a condição para a nossa relação de fé. Jesus apresenta esse compromisso no capítulo anterior (João 13:34-35): o Novo Mandamento de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou. Não basta uma determinação meramente verbal, como a de Pedro, que garantiu que daria a vida por Jesus e acabou por O negar três vezes. O compromisso envolve uma convicção firme na nossa pátria celestial - nas "muitas moradas" que Ele nos foi preparar (João 14:1-3) -, libertando-nos do imediatismo terreno.
Até aqui olhámos para o texto sagrado no seu devido lugar. Compreendemos - compreensão que faltou no caso a que nos reportamos - que "pedir em nome de Jesus" não é uma fórmula mágica de prosperidade, mas sim um alinhamento com o seu carácter e com a missão de glorificar o Pai. Entendemos, deste modo, a teologia que se revela no texto.
Mas agora precisamos de trazer esta verdade para o chão da nossa vida. É aqui que a teologia esbarra na nossa dor. Porque quando a doença bate à porta, quando o diagnóstico do médico é assustador, ou quando vemos um amigo querido a sofrer na cama de um hospital, a nossa teologia é posta à prova.
Surge então o grande dilema:
- se Jesus prometeu que faríamos obras maiores e que faria tudo o que pedíssemos em seu nome, como explicar os milagres que acontecem e, acima de tudo, aqueles que parece não acontecerem?
- Será que a promessa falhou ou seremos nós que estamos a ler as respostas de Deus com os olhos errados?
Talvez com recurso à história e à soberania do Senhor podemos encontrar a resposta...
Podemos e devemos orar para que o Senhor nos cure? A resposta é um sim absoluto! A Bíblia apoia e ordena explicitamente a oração pelos enfermos. Em Marcos 16:17-18, Jesus deixa a sua comissão: «...imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão». Em Lucas 4:40, vemos o exemplo do próprio Jesus, que curava os doentes que lhe traziam. Em Tiago 5:14, os doentes são instruídos a chamar os presbíteros para orar por eles e ungi-los com azeite em nome do Senhor...
A cura divina é real e legítima.
No entanto, a forma como Deus responde manifesta-se segundo os seus caminhos e a sua soberania.
Nós já compreendemos isto, felizmente, e temos presentes muitas experiências que no-lo confirmam. Lembras-te, Elias, dos dois factos históricos marcantes que aconteceram em Portugal, no curto espaço de um ano, que fomos buscar à nossa memória de leitores da revista Novas de Alegria? No primeiro caso, no final de 1956, passou por Lisboa e pelo Porto um pregador americano chamado T.L. Osborn. Ele estava apenas de passagem, retido em Lisboa a aguardar autorização sanitária para viajar para o Gana. Sem qualquer preparação ou publicidade prévia, gerou-se uma campanha evangelística espontânea. A Casa de Oração de Lisboa ficou em absoluto caos, cheia de gente em todos os cantos. Os relatos da época dizem que, sem manifestações espetaculosas, Osborn limitou-se a pregar insistentemente sobre o poder do precioso nome de Jesus e a redenção descrita em Isaías 53:4-5.
O resultado? Deus operou milagres tremendos. Curou surdos, aleijados e todo o tipo de moléstias. Há até um caso documentado de um homem chamado Leonardo Correia, incapacitado por uma doença grave, que colocou a mão onde lhe doía seguindo a instrução do pregador, foi curado instantaneamente e recebeu ordem do seu próprio médico para regressar ao trabalho. Deus operou sinais ali para validar o Caminho.
Mas avancemos para Maio de 1957, na mesma cidade de Lisboa. Chegou a Portugal Einar Ekberg, um dos cantores cristãos mais conhecidos do seu tempo, vindo da Igreja Filadélfia da Suécia. Ele moveu multidões com os seus hinos inspirados. Mas Ekberg já viajava doente, padecendo de um cancro. Sendo um homem de profunda fé, que servia a Deus desde a juventude, depositou toda a sua confiança no Senhor e recusou tratamentos invasivos. Centenas e centenas de irmãos na Suécia e pelo mundo fora oraram fervorosamente pela sua cura física. Mas o Senhor não o curou da forma como pediam. Einar Ekberg faleceu de cancro aos 56 anos, depois de ter enchido o mundo com mais de duzentos discos, compostos por si, e quando ainda parecia ter tanto para dar à humanidade...
Como explicar isto?
Osborn ora e o doente é curado; a igreja mundial ora por Ekberg e o cantor falece.
Faltou fé?
Faltou dedicação?
Ambos concluímos que não se trata disso: é mera constatação da soberania de Deus!
O próprio Jesus, quando esteve na sua terra natal, em Nazaré, diz o texto de Marcos 6:5-6 que «não podia fazer ali nenhum milagre, a não ser curar alguns poucos enfermos», admirando-se da incredulidade deles.
Fizeste bem, Elias, no apoio que deste, em dissertar sobre a necessidade de blindar o coração contra a frustração, ao ancorar a mente em três verdades bíblicas sobre a soberania de Deus:
Os pensamentos de Deus são maiores: Em Isaías 55:8-9, o Senhor lembra-nos que os seus caminhos e pensamentos são infinitamente mais altos do que os nossos. A nossa visão é limitada ao hoje; a de Deus alcança a eternidade.
A graça pode ser a resposta: O apóstolo Paulo, em 2 Coríntios 12:8-9, orou três vezes para que Deus lhe retirasse um espinho na carne. A resposta de Deus não foi a cura, mas sim: «A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza». Há momentos em que Deus é mais glorificado sustentando-nos na fraqueza do que retirando a dor.
A fé do "E, se não": Em Daniel 3:17-18, os três jovens judeus diante da fornalha ardente disseram ao rei: «O nosso Deus nos pode livrar... E, se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses». A nossa fé não pode estar condicionada ao facto de Deus fazer ou não o que queremos. Ele continua a ser Deus, quer nos livre da fornalha, quer permita que sejamos consumidos por ela.
Se o texto de João diz que Ele fará o que pedirmos, e se muitas vezes não recebemos, a Escritura aponta caminhos para avaliarmos as nossas orações.
O primeiro motivo, como vimos em Nazaré, pode ser a incredulidade ou a falta de fé genuína, que bloqueia a ação do poder de Deus no nosso meio.
Mas há um segundo motivo muito frequente na nossa vida devocional, e que está registado na Epístola de Tiago, capítulo 4, versículo 3: «Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites».
Neste contexto, Tiago estava a repreender a comunidade por causa das contendas e ambições egoístas. Pedir mal significa orar com a motivação errada. Significa focar a oração nos nossos desejos puramente egoístas, na busca pelo conforto mundano, pelo prazer pessoal ou pela cobiça, em vez de procurarmos a vontade de Deus e o bem comum.
Quando oramos pelo nosso bem-estar, pela nossa saúde ou pelas nossas finanças, estamos a visar a glória de Deus e o serviço ao seu Reino, ou estamos apenas a pedir um alívio para continuarmos a viver focados em nós mesmos? Deus não responde a orações que servem apenas para alimentar o nosso egoísmo.
Ainda bem, meu amigo, que concluímos a nossa reflexão com uma certeza clara: Deus não é «um caixa automático espiritual» que serve para satisfazer as nossas vontades ou validar os nossos caprichos. E voltando aquele texto, as promessas de Jesus não falharam. Elas foram e ainda são firmes. Aprendemos que Deus responde as orações. Mas a resposta que dá - ou a posição de «silêncio» em que permanece - está vinculada à sua soberania e à sua glória. Às vezes a resposta é "Sim", como aconteceu através do ministério de Osborn em 1956, onde o poder de Deus se manifestou em curas extraordinárias para abrir o Caminho. Outras vezes, a resposta é "Não" ou "Espera", como aconteceu em 1957 com o querido cantor Einar Ekberg, que mesmo cheio de fé e cercado por orações, foi recolhido para a glória (e que belas canções ele escreveu e/ou nterpretou! Devem estar a ser entoadas no Paraíso!)
Deus cura o corpo hoje se isso glorificar o seu nome; mas quando decide não curar fisicamente, Ele cura a nossa eternidade levando-nos para as "muitas moradas" que nos preparou na casa do Pai. Em ambos os casos, Ele continua a ser Deus, e continua a ser bom.
Às vezes, é necessário «apelar» para que os que têm fé mudem a sua forma de orar. Devem purificar as intenções do seu coração. E quando apresentarem a Deus as suas necessidades, que não peçam para gastar nos seus próprios deleites. Que peçam com fé, com ousadia, mas que fechem sempre a sua oração com a mesma maturidade espiritual com que Jesus fechou a sua no Getsémani: «Contudo, Senhor, não se faça a minha vontade, mas a tua».
Que a nossa maior busca seja a glória do Pai, e que a nossa fé nunca seja abalada pelo silêncio d’Aquele que nos ama com amor eterno.
Abraço-te, Elias.
PS: Agora compete-te dizer se o «rascunho» da nossa conversa «está conforme»... Evidentemente, não relatei os aspectos em relação aos quais não consolidamos uma forma unânime de discernir «os desígnios de Deus». Afinal, ainda estamos no Caminho e o mais importante é a convicação de que estaremos, um dia, na morada celestial...
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