Meu Caro Elias,
Ando a completar estórias...
Avisei-te!
Mas, se bem me lembro, nada do que se refira à «nossa Angola» te é estranho.
Tinhas referências do Dodge? Não me lembro de alguma vez termos falado dele ou da acção dele.
Mas consta de NA, como abaixo anoto.
Dás uma vista de olhos?
Abraço-te
José manuel Martins
Num texto publicado em Agosto de 1947 (NA, Ano V, nº 56, Agosto de 1947). sob o título «Para África», assinado por Cerro e Pina, escrito em Lourença Marques, depois de 34 dias de mar - Lisboa, Porto-Leixões, Madeira, São Tomé e Princípe, Luanda, Lobito, Cap Town, Lourenço Marques) chamou-me a atenção um parágrafo curto: «Em Luanda estivemos em casa do irmão Dodge, director da missão evangélica daquele lugar, onde vimos uma grande igreja e escola de ensino primário para os pretos».
Estávamos no pós-guerra, a descolonização em África só seria tema relevante na década seguinte, o regime colonial estava a consolidar-se, as relações sociais ainda eram o que eram e os jovens Cerro e Pina teriam muito tempo para se ajustar à linguagem mais adequada ao «novo mundo» que se advinhava. Menos de 20 anos depois desse epísódio, seria «chocante» afirmar que a escola era só para os pretos...
Mas não é sobre isso que me interessa escrever: é sobre a figura «do irmão Dodge». Na altura, penso eu, quando foi publicada a revista NA, o dito irmão Dodge era apenas o «director da missão evangélica daquele lugar» onde havia «uma grande igreja e escola de ensino primário para os pretos».
Sinceramente, não me lembro de ter ouvido falar nem do Dodge nem da dita escola. Da Igreja, sim, que era central em Luanda, mesmo para quem não se interessasse pelas coisas do protestantismo... O tempo não era propício a esse intercâmbio eclesial, depois de Fevereiro de 1961, dadas as suspeições com relação ao apoio às elites que dirigiam os movimentos/partidos de oposição à presença dos portugueses... Daí, talvez, o Dodge não ser uma figura muito conhecida doutras orientações que não se reviam nem apoiavam ideologicamente ou doutro qualquer modo essas «forças sociais e políticas emergentes». Era o caso dos pentecostais, desde a experiência do Cuanza-Sul, prévia à eclosão da violência e do terrorismo.
Quis saber, agora, sem muito investimento em investigação, algo acerca do dito Dodge, nome gravado em Novas de Alegria. Fui pela internet e vi o seguinte:
Trata-se do Bispo Ralph Edward Dodge (1907–2008), um influente missionário metodista norte-americano que teve um papel marcante na história de Angola. Os registos apontam os seguintes detalhes sobre a sua trajectória e o período em questão. Ralph Dodge trabalhou extensamente para a Igreja Metodista Unida em África. Em Luanda, as missões protestantes norte-americanas geriam importantes redes escolares e de saúde de apoio à população local.
Os registos biográficos confirmam a sua presença activa em missões em Angola e Moçambique durante as décadas de 1930, 1940 e 1950. Em finais dos anos 1940, o regime colonial português começou a vigiar mais de perto as suas atividades devido ao receio da influência "desnacionalizadora" das escolas protestantes. Dodge era visto pelas autoridades portuguesas (incluindo a polícia política PIDE) como uma figura "demasiado liberal" e "anti-portuguesa". Ele atribuiu bolsas de estudo no estrangeiro a jovens angolanos que mais tarde se tornaram líderes dos movimentos de libertação nacional (como Agostinho Neto). Devido ao seu forte posicionamento contra o colonialismo e o sofrimento das populações africanas, o governo português revogou a sua autorização de residência em Angola em 1961 (e posteriormente em Moçambique, em 1962), forçando-o a abandonar o território. O próprio Ralph Dodge deixou registos escritos detalhados sobre as suas vivências em Angola em formato de memórias: “Angola and Protestant Conscience” (Artigo publicado em 1961): “The Unpopular Missionary” (Livro publicado em 1964); “The Revolutionary Bishop Who Saw God at Work in Africa” (Autobiografia publicada em 1986). Para além dos livros do próprio autor, existem relatórios detalhados da administração colonial portuguesa da época (finais da década de 1940) conservados no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) e na Torre do Tombo, em Lisboa, que detalham a vigilância do Estado Novo sobre as escolas protestantes em Luanda.
Já percebi a razão pela qual nunca me deram conta da obra de Dodge, when I was there, with my feet on the ground... Eu era naïf mas teria percebido. Teria visto a PIDE e assim, para mim, ela andou quase sempre na sombra, no anonimato dos que falavam à boca cheia dos outros, diantes dos chefes da opressão, nem que fosse pelo mero prazer de causar mal, mossa, tortura, prisão arbitrária...
Não sei mesmo, em face do que agora descobri do Dodge, a razão pela qual a Censura admitiu, na carta do Pina e do Cerro publicada em Novas de Alegria, o nome dele se eles escreveram que havia uma escola de ensino primário para os pretos e isso podia ser considerado subservivo, acto típico de «desnacionalização» levada a cabo pelos missionários metodistas... A acção da Censura tinha dias em que não via nada ou - quem sabe!? - não foi após essa notícia que Dodge começou a ter a vida dificultada em Luanda... Afinal, ele tinha uma escola de ensino primário para os pretos!
PS: Para que conste, a figura de Doge não é estranha à minha biblioteca:
A Igreja em Angola, Lawrence W. Henderson, Editorial Além-Mar. 1º edição, 1990, pag. 225 -228, A Igreja Metodista, e pág. 333, Reacções externas à guerra, donde consta a referência à posição de Dodge em «Angola e a consciência protestante: acusação contra o regime de Salazar na crise angolana: o tratamento brutal dos africanos, as intimidações, o terrorismo, as discriminação religiosa e a falta de rectidão nas negociações oficiais».
2000 anos de cristianismo em África, John Baur, Paulinas, 2002, pág.327, O Metodismo (aí se refere a acção de Dodge e a sua deportação, em 1964, por Ian Smith, na antiga Rodésia.

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