A Primavera floria nas plantas mais temporãs. Ainda não tinham
chegado as águas de Abril para a fazer esquecer. O dia nascera
aberto com o sol à procura do seu esplendor máximo. Pouco passava
das oito e trinta quando o comboio, pontual, parou na terceira
estação da margem direita do rio, que marca a fronteira sul da
cidade. Uns, apressados, perfurando, em ápices sucessivos, a
multidão através dos espaços momentaneamente abertos; outros,
cadenciando o ritmo usual para o percurso directo ao destino.
Habituara-se, desde que fora inaugurada essa linha ferroviária,
àquele horário e, ao fim de oito minutos, mais coisa menos coisa,
estava sentado à secretária, na Repartição dos Impostos, depois
de ter cumprimentado os funcionários, seus subordinados, chegados
instantes antes dele. Deu-se muitas vezes a pensar com os seus
botões, aliviado, tranquilizado com essa certeza diária de poder
chegar a horas, a relevar os investimentos públicos que notabilizam
os respectivos decisores, a audácia de mandar adaptar a velha ponte,
há tantos anos preparada para deixar o comboio circular entre as
duas margens… Estimulava-se, nessas ocasiões, para vencer as
barreiras diárias que as tarefas de tornar exequíveis as leis
fiscais lhe colocavam diariamente. Para fins de interesse público
tão relevantes, urgia cobrar todos os impostos liquidados e liquidar
e cobrar os que eram devidos por quem não os declarava.
Durante alguns meses – tinha quase a certeza que isso acontecera
desde o preciso dia em que se inaugurara aquela infra-estrutura –
tivera por companheiro de viagem, diariamente, um ex-colega de
Faculdade, que fazia carreira na banca do Estado. Durante cerca de
cinco anos encontraram-se, esporadicamente, nas redondezas do
edifício dos impostos e da sede do Banco do Estado, depois do
almoço, no passeio de descontracção que ambos faziam, aliviando-se
do ar condicionado. Desde que optaram por aparcar os veículos junto
à estação mais próxima das suas residências, aprofundaram a
convivência, partilhando interesses e opiniões comuns. Fizeram-se
amigos, apesar de não se encontrarem fora desse círculo de
relacionamento – todas as manhãs tomavam o mesmo comboio,
sentavam-se ao lado um do outro, discorriam sobre a vida, nos limites
que cada um se impunha, e percorriam o mesmo trajecto até à entrada
do edifico dos impostos. Nos últimos sete meses, porém,
desencontraram-se pois o do Banco do Estado mudara-se para outro
edifício, mais próximo, logo ali em frente da estação, e optara
por sair de casa quinze minutos mais tarde.
Nesse dia atrasara-se uma hora, o tempo necessário para voltar a
casa, onde deixara, esquecida, uma pasta com um relatório sobre a
aplicação duma norma fiscal, que estava a gerar controvérsia nos
Serviços, elaborado depois do jantar do dia anterior, para
apresentar ao Director-Geral. Aproveitou os vinte e dois minutos de
viagem para relê-lo e anotar as últimas gralhas. Deu de caras com o
amigo, no exacto instante em que transpunha a porta de saída da
estação. Estava atrasado e por isso apenas o inquiriu da razão por
que estava ali. O outro disse-lhe que ia para casa, mas vendo-lhe o
espanto nos olhos, em poucas palavras, visto que se apercebera da
pressa dele, explicou-lhe que desde o dia anterior estava aposentado
e que, de manhã, se esquecera disso; só à porta do edifício e
quando procurava na pasta o cartão de acesso é que se dera conta
que já não trabalhava ali… O dos impostos fez um ar de admiração
e, sem mais, despediu-se. Libertou-se do relatório já pela tarde
dentro. Lembrou-se do amigo. Aposentado aos cinquenta anos? Mas não
tinha mais de vinte anos de descontos… Um profissional dedicado,
dez a onze horas por dia, responsável intermédio no departamento
jurídico de grande importância na instituição bancária, de
aparente boa saúde, adepto da formação e actualização contínuas,
de desempenho excelente, reconhecido anualmente com promoções e
participação nos lucros, de quem os colegas faziam laudatórias
referências. Ter-se-ia alterado este “quadro” durante o período
em que esteve envolvido na reestruturação do departamento, por
causa da integração dos serviços doutro banco, tecnicamente
falido, que desta forma se salvava? Parecia-lhe inverosímil que, tão
repentinamente, se aposentasse um profissional assim. Mas não tinha
nenhuma razão para duvidar do que ele lhe dissera, apesar da
ausência de pormenores, dada a rapidez do encontro. O expediente
desse dia estava quase completo quando se apercebeu que era um de
Abril… Sem duvidar do amigo, telefonou para a direcção de pessoal
do Banco do Estado e perguntou por ele. Disseram-lhe, sem perda de
tempo a consultar arquivos, que assinara no dia anterior o acordo de
pré-reforma, com efeitos imediatos. Palavra puxa palavra, formou a
convicção de que por ali todos sabiam do caso e imputavam o
desfecho à ajuda “duma boa madrinha”. De padrinhos já ouvira
falar, mas de madrinhas… O amigo, afinal, falara-lhe a sério
embora o dia fosse o das mentiras.
Setembro, 2004 - José Manuel Martins
Sem comentários:
Enviar um comentário